A batalha dos métodos: Heterodoxia versus Ortodoxia

A ortodoxia e a heterodoxia são abordagens econômicas profundamente divergentes. Suas diferenças abrangem tanto questões metodológicas quanto políticas.

Por sua vez, cada uma destas abordagens é composta, por sua vez, por uma ampla gama de teorias que divergem entre si, o que torna o debate econômico multifacetado e bastante acirrado.

Na ortodoxia dominam as chamadas teorias neoclássicas. Estas são dominantes nos cursos de economia, recebendo a alcunha de mainstream, sendo vistas principalmente nas disciplinas de microeconomia e macroeconomia.

A ortodoxia é uma abordagem econômica mais homogênea, com poucas discordâncias entre as teorias que a compõe. Aqui temos teorias que defendem, majoritariamente, a dominância dos mercados, em contraposição do Estado, como mecanismo de alocação dos recursos da sociedade.

Embora haja, entre os economistas ortodoxos, algumas menções sobre a importância dos governos para combater falhas de mercado, ainda assim esta é uma abordagem em que há mais convergências do que conflitos.

O mesmo não ocorre na heterodoxia, cujo grupo abrange teorias muito mais diversas, apoiando desde perspectivas socialistas até anarquistas, e passando por algumas que defendem o capitalismo.

Os austríacos, por exemplo, que são comumente associados à direita no debate popular, pertencem ao grupo dos heterodoxos, junto com os marxistas, que, por seu turno, são famosos pela defesa do socialismo e o comunismo.

Friedrich Hayek e Karl Marx

Percebe como a heterodoxia é bastante plural e abrangente na sua composição?

Neste momento o leitor deve estar se perguntando: como podemos qualificar teorias econômicas que defendem coisas tão diferentes, como o capitalismo e o socialismo, em um grupo só?

Embora as diferenças entre as teorias econômicas heterodoxas sejam profundas, elas se assemelham em um ponto que é muito importante: todas são avessas ao método de a analisar a economia e a sociedade a partir da visão de equilíbrio.

Equilíbrio na economia ortodoxa

Quem estudou economia aprendeu desde o início que os preços e quantidades dos bens e serviços de uma sociedade são definidos pelas quantidades de oferta e demanda. Neste caso, são feitas duas curvas, em que determinamos um preço e uma quantidade de equilíbrio.

Equilíbrio nas curvas de oferta e demanda

Neste caso, toda a análise do mercado se baseia em como a oferta e a demanda se equilibram. Se a demanda estiver muito elevada em relação à quantidade de oferta de uma determinada indústria, então teremos uma elevação dos preços até o ponto em que tudo seja igualado.

O equilíbrio requerer que muitas coisas sejam determinadas e conhecidas previamente, como a função de produção das empresas e a função demanda das pessoas.

Neste caso, deve haver racionalidade perfeita tanto dos capitalistas quanto dos consumidores, pois para maximizar os lucros e utilidades, cada pessoa e cada empresário deve saber, de antemão, o que cada um vai fazer, pois só assim conseguirá definir seus preços e programar a quantidade de oferta de trabalho – no caso dos consumidores e trabalhadores – e de bens e serviços – no caso dos capitalistas.

Logo, a existência de racionalidade perfeita evidencia a possibilidade de calcular objetivamente as probabilidades de eventos futuros, ou em quais pontos do sistema ocorrerá o equilíbrio. Logicamente há muito mais sofisticação e profundidade do que isso. Mas a essência é esta.

Um dos principais autores sobre este tópico é Robert Lucas, cujos escritos argumentam em prol de que as teorias econômicas devessem considerar que os indivíduos têm expectativas racionais sobre os fenômenos futuros.

Robert E. Lucas, Jr. | Barcelona Graduate School of Economics
Robert Lucas, economista neoclássico, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1995.

A implicação principal destas teorias é a de que os mecanismos de mercado sempre encontrarão o caminho para sanar as necessidades humanas, de acordo com aquilo que a sociedade consegue fornecer.

Cabe ao Estado somente o dever de resguardar os direitos de propriedade que são fundamentais para permitir a realização das trocas nos mercados.

Por sua vez, todas as crises capitalistas são causadas por fatores exógenos aos processos presentes dentro dos mercados. Estes choques causam crises pois distanciam os mercados do ponto de equilíbrio.

Entretanto, com o tempo, se deixado o mercado trabalhar, toda a harmonia será restaurada. Ou seja, a economia caminhará novamente para o ponto de equilíbrio.

Economia Heterodoxa: instabilidade e mudança

Já os economistas da ala heterodoxa são avessos à análise de equilíbrio. No geral, para estes, o excesso de confiança nos mecanismos de mercado gera dois problemas principais.

Primeiro, nada garante que o ponto de equilíbrio, no qual o sistema supostamente estará localizado, será aquele que permitirá a sociedade ter seu nível máximo bem-estar

O economista John Maynard Keynes, por exemplo, ficou marcado ao afirmar sobre a tendência da economia capitalista de se manter em pontos de equilíbrio com níveis de emprego insatisfatórios para a sociedade.

Keynes x Hayek - Lendas do século XX - Curiosidades - Colégio Web
John Maynard Keynes

Segundo, há ainda a crítica de que os mecanismos de mercado não garantem um equilíbrio estável, uma vez que há forças econômicas inerentes ao sistema que sempre criam instabilidades.

No caso, a plena liberdade tanto dos mercados financeiros quanto os de bens e serviços, tenderiam a levar a economia mais para o caos e a instabilidade do que para a harmonia.

Isso se deve pois, para esta abordagem, não há os pressupostos verificados na perspectiva ortodoxa que garantem o equilíbrio. No esquema heterodoxo impera a racionalidade limitada, a assimetria de informação (as pessoas não têm as mesmas informações) e as mudanças estruturais e institucionais.

Tudo isso torna impossível prever os rumos futuros da economia. Ou seja, os heterodoxos trabalham com a incerteza total.

Neste caso, instabilidades financeiras e recessões são derivadas de desequilíbrios que constantemente ocorrem nos diversos mercados. Isso implica que as crises não são facilmente superadas pelos mecanismos de mercado.

É necessária atuação do Estado em todos os momentos do sistema para resguardar a harmonia e a estabilidade das forças de mercado. São as chamadas políticas anticíclicas.

Logicamente que nem todas as correntes teóricas apregoam este receituário. Marxistas e austríacos, embora preguem um fim diferente para o sistema, vão na direção de criticar a ação do Estado para resguardar a economia capitalista nos moldes atuais.

Mas há muitos autores de outras correntes, especialmente aquelas ligadas à Keynes, os chamados keynesianos (e também os pós-keynesianos), que defendem a ação do Estado para resgatar o capitalismo da falência.

Dificilmente uma teoria consegue abordar todas as questões e todas as relações causais. A economia é um sistema complexo que, ao mesmo tempo que mantém certas regularidades, como as abordagens ortodoxas de equilíbrio geral, também é marcada por transformações que a conferem uma característica de instabilidade, nos moldes das análises heterodoxas. Conhecer os dois lados do debate é fundamental para compreender todas as faces de uma das construções sociais mais intrigantes que a humanidade já fez, que é a economia capitalista.

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