Mais Darwin, menos Newton: o institucionalismo de Veblen

Thorstein Veblen (1857 – 1929) foi um economista e sociólogo norte-americano com visões bastante peculiares, quando comparado com a maioria dos autores da ciência econômica.

A abordagem deste autor é pouco conhecida pelo grande público, e até mesmo por muitos acadêmicos. Muito disso se deve por causa do linguajar confuso que utiliza em suas obras, como também pela ampla complexidade de suas ideias, o que sempre dificultou qualquer tentativa de sistematização por parte dos acadêmicos.

Outra coisa que também o tornava impopular era o seu comportamento estranho para os padrões da época. Seu livro intitulado “A Teoria da Classe Ociosa” foi marcado pelo pesado tom crítico e irônico na análise do comportamento das elites de seu país. O livro fez sucesso à época mas não pegou bem entre as classes mais altas, que, por sua vez, eram os que financiavam as universidades.

Sem contar também problemas envolvendo seu casamento e demais relacionamentos. Veblen era conhecido por ser bastante mulherengo. Mas isto não vem ao caso aqui.

Thorstein Veblen

No geral, Veblen avançou em várias direções. Tinha uma visão bastante progressista e, portanto, anti-conservadora. Era crítico da hipocrisia religiosa, do consumismo, do sistema financeiro, da exploração das grandes organizações, além de ter sido um dos primeiros autores homens a argumentar em prol do feminismo (embora seja criticado por algumas passagens machistas em suas obras).

Apesar destas visões parecerem nocivas àqueles que são simpáticos aos mercados, Veblen também apresenta várias contribuições que podem ser úteis para aqueles interessados em aprofundar na área.

Institucionalismo

Veblen é comumente considerado o pai do institucionalismo.

As contribuições iniciais do autor norte americano para o debate foram no sentido de criticar o tratamento sobre os agentes dado pelos economistas clássicos. A concepção de indivíduo como um ser previamente dotado de uma função maximizadora fora profundamente atacada.

Como contraponto, sugeriu-se uma via alternativa para o avanço da ciência econômica. Sua principal questão na oposição aos economistas clássicos era de que o indivíduo deveria ser explicado a partir de relações de causação cumulativa, indo em linha com os princípios filosóficos darwinianos.

Isto implica na pressuposição de que as formas habituais de pensar e agir dos agentes econômicos devem ser explicadas e não pressupostas.

Assim, Veblen se torna o precursor de uma abordagem teórica que estabelece a existência de instituições – mais especificamente hábitos mentais enraizados socialmente – como mecanismo principal para a determinação da ação econômica.

Esta abordagem, posteriormente, apresentaria novas versões, embora divergentes entre si.

São os casos da Nova Economia Institucional (Douglass North), de cunho ortodoxo, e da Economia Política Institucionalista (Há-Joon Chang), que estabelece uma agenda desenvolvimentista para a promoção de políticas para países de industrialização tardia. Não se pode esquecer também da corrente neo-institucionalista, na qual se tem Geoffrey Hodgson como principal expoente, cuja marca principal é o resgate das ideias principais de Veblen para o debate econômico contemporâneo.

Mais Darwin, menos Newton

No geral, Veblen era um ferrenho crítico ao sistema capitalista, como também às interpretações ortodoxas em geral. Sua principal crítica se devia ao esforço dos economistas de aproximarem as ciências econômicas aos princípios filosóficos da física newtoniana.

Para este autor, o equilíbrio da mecânica clássica era incompatível com um sistema que estava em constante transformação. Por isso, sugeriu que a economia estaria mais próxima da biologia evolucionária, em especial aquelas abordagens que tinham como inspiração a leitura de Charles Darwin.

A abordagem institucionalista vebleniana é marcada pelo conceito de instabilidade, em contraposição à ordem promovida pelas abordagens de equilíbrio da economia ortodoxa. Aqui, tem-se que os sistemas, econômico e social, estão em constante transformação. Tais transformações são resultantes de várias coisas: inovações, lutas pelo poder, mudanças ambientais e de hábitos.

Os diversos fatores que afetam os sistemas sociais contribuem para modificar os hábitos de vida dos povos. Ao modificar tais hábitos, as instituições devem também se adaptar. Com a mudança institucional, tem-se, por sua vez, mudanças nos componentes de determinação de todo o sistema. Tais mudanças ocorreriam em um processo análogo aos da viologia evolucionária, de inspiração darwiniana.

Em suma, a abordagem de Veblen estabelece um programa de pesquisa voltado para analisar os sistemas a partir de fatores de causa e efeito. A proposta é compreender os processos que transformam a vida humana. Uma vez que as sociedades estão constantemente se transformando, em um processo que se desdobra constantemente, tendo cada etapa um novo episódio que irá causar as mudanças seguintes, tem-se que esta é também uma abordagem histórica.

Para Veblen, o futuro não é determinístico. Enquanto que os ortodoxos (neoclássicos) estabelecem um ponto de equilíbrio, cujo qual estabelecerá a ordem e estabilidade, a economia vebleniana enxerga o futuro como incerto, cuja realização dependerá do processo de mudança institucional e sua interação com os hábitos humanos.

Um pouco sobre as principais obras do autor

O pensamento de Veblen é amplo e complexo, de modo que é praticamente impossível resumi-lo em um único post. Aqui tentei apenas apresentar o que seria os aspectos gerais da abordagem vebleniana no que se refere à sua proposta de transformar a economia em uma ciência evolucionária.

Outros posts serão feitos no futuro. O autor abrange outras questões importantes, desde os aspectos fundamentais da natureza humana até o capital financeiro e produtivo. Juntos, estes tópicos formam um corpo teórico peculiar e pertinente ao mesmo tempo, o que tornam a análise de Veblen única e intrigante.

Deixo aqui algumas das obras de destaque do autor para aqueles que tiverem interesse em avançar neste campo de estudo:

Why is economics not an evolutionary science? Artigo de 1898, em que Veblen contrapõe a visão mecanicista da economia ortodoxa e analisa a mudança necessária para que a economia se tornasse uma ciência evolucionária.

A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. Livro de 1899, com versão brasileira publicada pela editora Abril (coleção Os Economistas). Trata de uma análise profunda da mentalidade da classe alta norte americana, nos finais do século XIX. Uma das obras mais famosas e provocativas do autor.

The Theory of the Business Enterprise. Livro de 1904, no qual Veblen explica a dinâmica dos negócios de uma economia capitalista, em que a lógica do lucro prevalece sobre a da produtividade e o bem estar social. Também apresenta alguns insights interessantes sobre o processo de acumulação e o surgimento de crises financeiras a partir de uma perspectiva única sobre o capital.

The instinct of workmanship and the state of the industrial arts. Livro de 1914 em que o autor sistematiza elementos presentes em vários de seus demais trabalhos. Aqui há uma elaboração melhor sobre a sua “psicologia dos hábitos e instintos”, em que tenta fazer a conexão entre instituições e mente humana. É um livro de elevada complexidade, mas essencial, talvez um dos mais importantes, para aqueles que querem compreender a essência do pensamento de Veblen.

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