Perspectiva para o mercado de capitais: Tá ruim, mas tá bom também

A bolsa de valores do Brasil parece estar enfrentando um dilema. De um lado, o país experimenta a menor taxa de juros de sua história, o que é bom pois torna mais atrativo o risco.

Por outro lado, a queda da taxa de juros é determinada, em parte, pela estagnação da economia brasileira. Isso é ruim pois as empresas passam a ter mais dificuldades para conseguir vender seus bens e serviços no mercado.

Diante disso, qual pensamento ter frente à este empasse?

Tá ruim…

A queda da taxa de juros gerou um movimento de manada para os ativos da bolsa de valores. O número de novos investidores na bolsa saiu da casa dos 800 mil para 2,5 milhões em dois anos.

A disputa pelas ações fez com que os preços se elevassem consideravelmente. Seja lá qual múltiplo você utilize, vai ser difícil encontrar algo barato. Muitos ativos, como Magazine Luíza (MGLU3), Weg (WEGE3), Unidas (LCAM3), Localiza (RENT3, estão sendo negociados à uma razão de Preço/Lucro recorde.

Histórico de P/L da Weg (WEGE3)

Isso pode gerar arrepios em pessoas mais conservadoras. Aquela ideia de que tudo em excesso é ruim pode fazer sentido aqui. Ou seja, há o receio de que os ativos estão caros e que, uma hora, as pessoas irão começar a realizar os lucros.

Podemos argumentar também que a valorização dos ativos do mercado de capitais se deve mais pela queda da SELIC e menos por causa do otimismo com a atividade econômica. O desemprego elevado, a baixa taxa de investimento produtivo (formação bruta de capital fixo), os efeitos da pandemia, a instabilidade política, dificilmente criarão condições pra uma melhora rápida.

Mas nem tudo é apenas pessimismo. Há oportunidades de ganho para as companhias e investidores aproveitarem no longo prazo.

Mas tá bom também

As condições do mercado financeiro – juros baixos e elevada liquidez – induzem uma prática que pode ser positiva para as empresas individualmente. É o caso das fusões e aquisições (F&A).

Como vemos nos dados abaixo, fornecidos pela KPMG, temos um crescimento forte nos movimentos de F&A a partir de 2017.

Em 2019 o Brasil bateu recorde de F&A

Ao mesmo tempo, enquanto tivemos um aumento nas F&A, houve uma estagnação nos investimentos produtivos do país (Formação Bruta de Capital Fixo – FBCF).

Ou seja, as companhias estão preferindo investir na compra de outras empresas do que criar novas capacidades de produção.

Desde 2015 o Brasil não consegue elevar sua taxa de FBCF.

Resgatando um pouco de teoria econômica pra avaliarmos estes fatores, temos que, para Veblen, em seu “The Business Enterprise”, as F&A são práticas de sabotagem da produção e da concorrência. Atuam tanto no sentido de permitir o crescimento do poder das organizações frente aos mercados, como também no sentido de restringir a competição e elevar as barreiras à entrada.

Para este autor, o objetivo das organizações em uma economia capitalista é o de acumular o máximo de poder possível. Quanto maior o poder dentro de um mercado, maior é a capacidade de controlar a oferta e, assim, obter lucros diferenciais (acima do normal).

Isto, por sua vez, é conquistado com o aumento da capacidade de controlar os mercados.

As F&A são um atalho quase sempre bem visto para o fortalecimento das companhias frente aos mercados. Ao mesmo tempo que permitem as organizações de aumentarem seu tamanho, elevando a capacidade de produção, o número de clientes e criando mais barreiras contra a entrada de outros no mercado, também contribui para restringir a concorrência, uma vez que há a junção de dois competidores.

F&A são mecanismos interessantes para as empresas crescerem e restringir a concorrência e crescer no mercado.

Recentemente, no Brasil, o conjunto de fatores representados por estagnação, juros baixos, elevada liquidez nos sistemas financeiros, criaram o cenário perfeito para a expansão das companhias via fusões e aquisições.

A criação de novas capacidades produtivas seria inviável em um cenário de incerteza quanto ao crescimento da demanda. Por sua vez, a estagnação enfraqueceu algumas empresas, enquanto que a queda dos juros e aumento da liquidez permitiram que aquelas organizações que estão melhor estabelecidas no mercado conseguissem captar recursos para adquirir seus concorrentes.

Só não pode piorar

Entretanto, nem tudo está garantido. Há fatores que podem colocar em risco a manutenção da dinâmica corrente e minar a estratégia de poder das companhias.

O primeiro é uma reviravolta na trajetória da política monetária. Uma elevação da taxa de juros (de curto ou longo prazo) invalidaria um dos pilares que apoiam o cenário atual.

A elevação dos juros criaria empecilhos para a realização de lucros anormais. Lembre-se, é mais fácil ter lucros diferenciais quando o custo de oportunidade é baixo (Selic de 2%).

Muitas vezes, os planejamentos financeiros levam em conta a situação corrente. A expectativa que o futuro será igual ao presente pode negligenciar mudanças possíveis nas condições do mercado financeiro.

Neste sentido, muitas empresas estão se alavancando, ou seja, fazendo dívidas elevadas para financiar suas atividades, com a crença de que irão conseguir rolar estas dívidas no futuro. Se as condições de liquidez mudarem poderá colocá-las em situação complicada.

Esse cenário é previsto pela teoria de Minsky sobre a hipótese da instabilidade financeira, que pode ser lida aqui.

Portanto, é necessário ter uma visão ampla, tanto micro – no âmbito das organizações – quanto macroeconômica – no que tange o paradigma que rege as políticas fiscais e monetárias.

O investidor deve se ater para as condições financeiras das empresas e analisar como seria o desemprenho destas em caso de uma deterioração do cenário monetário e financeiro, tanto no âmbito nacional quanto internacional.

Resumo

O momento atual oferece oportunidades de ganhos nos mercados de capitais devido aos movimentos de F&A, que elevam o poder das companhias frente aos mercados.

Mas também há riscos devido à instabilidade e incerteza da manutenção do cenário atual de baixas taxas de juros e alta liquidez nos mercados financeiros nacional e internacional.

Autor: Tales Rabelo Freitas

Doutor em Desenvolvimento Econômico da UFRGS, Mestre em Teoria Econômica pela UFES e Graduado em Ciências Econômicas pela UFSJ. Realizo pesquisas sobre economia institucional, macroeconomia, mercado financeiro, economia brasileira e desenvolvimento econômico.

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