Dinheiro ou trabalho? De onde vem a verdadeira felicidade econômica?

Em ótima reportagem de 2017 do El País, mas que foi repostada recentemente pelo site em suas redes sociais, foi feito uma reportagem sobre as diferenças entre felicidade e prazer. Na ocasião, entrevistaram dois psicólogos: Rosana Pereira, psicóloga do escritório Haztúa e especialista em psicologia positiva e gestão dos sentimentos, e Robert Lusting, especialista em saúde e bem estar e escritor do livro The Hacking Of The American Mind.

Para Pereira, “O prazer está relacionado com as sensações cruas, pontuais, à flor da pele, e por isso, tem uma duração muito curta. Ao contrário, a felicidade é uma forma de vida em médio e longo prazo”.

A autora associa o prazer e a felicidade com o fluxo de hormônios dentro do nosso corpo. “Os dois estados são determinados pelos hormônios; a dopamina, neurotransmissor que desencadeia no cérebro as sensações de euforia e recompensa, é o motor do prazer, enquanto a serotonina, relacionada com a calma e a satisfação, é responsável pela sensação de felicidade.”

O problema é que estes os dois hormônios nem sempre são complementares. No caso, “a dopamina suprime a serotonina, ou, colocando de outra maneira, a busca do prazer pelo prazer nos afasta da felicidade autêntica”, afirma Pereira.

Para ambos os psicólogos, a sociedade moderna está alicerçada na busca incessante pelo prazer. Este é conseguido a partir do consumo, da ostentação e das relações casuais sem muito envolvimento.

O problema deste estilo de vida é que ele vicia. “Como se fosse uma droga, cada vez mais precisamos de mais para experimentar o mesmo nível de bem estar”, segundo Pereira.

Ambos psicólogos argumentam que o prazer é baseado unicamente em “receber”, ao passo que a felicidade é relacionada aos hábitos de “dar”.

No caso, a felicidade é explicada a partir de uma conexão mais harmoniosa e verdadeira com o mundo. Um exemplo dado por Pereira é o de “encontrar momentos de qualidade com os outros que nos levem a gerar empatia, um motor básico para a produção de serotonina e, portanto, de felicidade duradoura”. Ainda, para a mesma autora, “dar ao outro e comprovar como sua contribuição faz as outras pessoas felizes permitem se concentrar internamente, pensar no que se tem e não no que falta”, afirma Pereira.

Relações verdadeiras e profundas são a base para a felicidade.

No geral, conforme esta perspectiva da psicologia, temos que o consumo e a ostentação nos oferecem um prazer intenso, porém menos duradouro e viciante. Enquanto isso, a felicidade é responsável por sensações menos intensas mas mais sustentável, além de estar associada não ao ganho individual, mas às práticas de serventia e conexões pessoais mais profundas e verdadeiras, que não geram ganho material.

Mas e os economistas? Será que concordam com isso? Vejamos como esse tema é debatido entre ortodoxos e heterodoxos.

Homo economicus: o maximizador de prazeres

Todos sabemos que dinheiro e consumo não trazem felicidade, mas mesmo assim nossas vidas são direcionadas, quase sempre, para a busca do ganho e acúmulo pecuniário.

Para a economia ortodoxa o bem-estar é determinado pelo máximo de utilidade material que cada indivíduo pode adquirir a partir de uma determinada renda. Esse conceito ganha uma formulação mais aprofundada pelos chamados economistas marginalistas, tendo como principais expoentes os economistas Jeremy Bentham, Jean-Baptiste Say e Nassau William Senior.

Segundo a abordagem neoclássica, a qual compõe o grupo da ortodoxia, o objetivo principal dos agentes econômicos é o de maximizar seus prazeres e minimizar suas dores. Esse é o chamado “homo economicus”.

Aqui, os prazeres são determinados pelo consumo. Cada bem e serviço que as pessoas compram apresentam certas utilidades que, por sua vez, confere bem estar para o seu possuidor.

Já as dores são representadas tanto pelo trabalho quanto pela escassez. Essa abordagem teórica pressupõe que há um desgosto pelo trabalho. Porém, as pessoas são induzidas ao trabalho pois a escassez também provoca sofrimento. Logo, os agentes econômicos optam por trabalhar na medida em que a renda ganha poderá ser direcionada para o consumo, o que, por sua vez, implica em diminuição da escassez.

Em suma, o agente econômico da perspectiva ortodoxa é aquele que irá buscar maximizar seus prazeres, a partir da maior quantidade de coisas que puder comprar. Em contrapartida, essa maximização deverá ser buscada a partir do menor esforço possível, em termos de trabalho.

A partir do momento em que o trabalho passar a causar maior dor do que o prazer – este derivado do consumo que a renda adicional causar –, então haverá ali uma pressão maior para diminuir o trabalho e, portanto, o consumo. Novamente, aqui temos a questão do equilíbrio, já tratada em post anterior.

Para a ortodoxia, os indivíduos sempre irão optar pela quantidade de horas trabalhadas e horas de lazer que maximizarão suas utilidades.

Em certa medida, esta teoria consegue explicar algumas questões sobre o comportamento econômico. Por exemplo, sabemos que trabalhar nos permite ter dinheiro para comprar as coisas que queremos. Mas de que adianta ter muito trabalho e muito dinheiro se não pudermos ter tempo para aproveitar do que foi ganho?

Por outro lado, essa teoria apresenta profundas limitações tanto para explicar outros tipos de comportamento quanto para explicar a trajetória de desenvolvimento econômico das sociedades. É aqui que a heterodoxia avança.

O trabalho é prazeroso, o sistema é que o torna desagradável

Um dos primeiros autores que contrapôs essa visão marginalista do agente econômico foi Thorstein Veblen. A sua crítica vai de encontro ao ponto que aborda o trabalho como uma desutilidade, ou desprazer.

Por ser um meio de sobrevivência, o trabalho realizado pelo homem não deveria ser considerado desagradável. Neste momento, o contraponto do autor institucionalista se apoia nos elementos contidos na teoria da seleção natural de Darwin, com a afirmação de que seria impossível qualquer espécie emergir e se tornar estável se seus integrantes fossem dotados por qualquer aversão às atividades necessárias para a subsistência.

Logo, o tipo de agente representado pelas características do homo economicus, idealizado pelos economistas ortodoxos, se torna uma anomalia devido à sua incoerência em relação à natureza das demais espécies.

Para Veblen, o homem é um ser ativo, que age sempre em busca de um propósito, de modo que esta característica se estabelece como uma propensão instintiva (chamada de instinct of workmanship), canalizada para a realização de algum fim concreto e objetivo.

Ou seja, não é o consumo e a posse de bens materiais a fonte fundamental do prazer e felicidade, mas sim a criação de bens e serviços que terão utilidade para outras pessoas.

Um exemplo disso é o sentimento de realização que temos quando fazemos as coisas e identificamos nosso trabalho nelas. Isso é sentido desde quando realizamos coisas grandes, como ao abrir um negócio, até feitos mais simples, como o de construir um brinquedo para uma criança, ou até mesmo quando fazemos um trabalho escolar bem caprichado.

O prazer é encontrado desde os trabalhos mais complexos até os mais simples.

Apesar de se opor à visão do homem como um ser naturalmente avesso ao esforço produtivo, Veblen não nega que tal aversão tenha aparecido e se fortalecido na sociedade moderna.

Embora as pessoas sintam prazer em criar e servir, isso só se torna desejável se tiver uma contrapartida. Esta contrapartida não é apenas dinheiro, mas sim o reconhecimento e o ganho de estima perante a sociedade.

Ou seja, o que incentiva o cozinheiro a fazer um prato fenomenal não é apenas o dinheiro e o seu desejo de agradar aos outros, mas o de ser reconhecido como um bom cozinheiro. O mesmo vale para o arquiteto, para o bombeiro, para o jogador de futebol, o enfermeiro e todos os demais profissionais.

O que torna o trabalho odioso não é a baixa remuneração e nem o esforço físico desprendido para a sua realização. A desutilidade do trabalho é devido à baixa consideração dada pela sociedade e o seu desconhecimento em relação à participação de cada trabalhador na importância do resultado final do processo produtivo.

Isso ocorre principalmente com o avanço da divisão social do trabalho, aprofundado com o avanço o capitalismo. Aqui, em vez de cada trabalhador realizar todos os processos para a produção das mercadorias, o que ocorre é a prática de colocar cada um para fazer uma função específica.

Com o desenvolvimento das máquinas e outros processos, a indústria torna mais produtiva se cada trabalhador se especializar em uma atividade específica, dentro das várias requeridas para a fabricação dos produtos.

Assim, o fruto do trabalho de cada pessoa passa a ser diluído no somatório dos trabalhos totais de uma quantidade enorme de outros trabalhadores.

Por exemplo, uma costureira, responsável por fazer as bainhas das calças, dificilmente sentirá satisfação ao ver os produtos da marca de sua empresa nas vitrines das lojas. 

Como o trabalho deixa de ser bem estimado, as pessoas vão procurar outras formas de sentir prazer.

O consumo e a ostentação permitem uma nova forma de conseguir estima na sociedade. No capitalismo, a maioria das pessoas são valorizadas não em função do seu trabalho mas sim da quantidade e qualidade dos bens e serviços que consegue consumir.

As redes sociais, por sua vez, entram em cena como mecanismo potencializador deste efeito. A ostentação de viagens, carros, celulares, roupas de marca e mansões são cada vez incentivadas pelos likes que geram nas postagens.

Como éramos. Como somos. Como queremos ser?

No geral, a teoria de Veblen nos permite compreender tanto a situação atual do comportamento econômico das pessoas, quanto a sua evolução.

A teoria ortodoxa explica como as pessoas optam pela quantidade de trabalho e consumo com base na odiosidade do trabalho e no prazer do consumo da sociedade atual. Ambos fatores dados como pressupostos, não explicados e, menos ainda, passíveis de transformação.

Já Veblen nos oferece uma análise mais profunda e dinâmica. Explica tanto o fato da sociedade nem sempre ter sido assim, como também os meios pelos quais desenvolvemos o gosto pelo consumismo e o desgosto pelo trabalho.

Além disso, a teoria de Veblen apresenta indícios sobre quais as motivações e instituições que sustentam esta nova estrutura de hábitos. Para este autor, é a estrutura institucional do capitalismo moderno que impede as pessoas que terem prazer pelo trabalho e buscarem refúgio no consumo como forma de manterem o desejo pela vida.

E aí, o que você pensa? Será que deveríamos provocar uma revolução de classes e tomar o poder dos capitalistas? Será que haveria meios de transformar as instituições vigentes, como as leis trabalhistas, as redes sociais e as inovações tecnológicas para mudar essa perspectiva de vida das pessoas? Ou será preferível deixar como está, pois, bom ou ruim, hoje as coisas são melhores do que eram no passado?

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