Estudo sobre a insolvência das empresas do transporte aéreo revela que os problemas já existiam antes da pandemia

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As empresas aéreas negociadas em todo mundo foram fortemente impactadas pela pandemia.

O principal risco que os investidores da bolsa de valores se deparam é com o perigo de quebra das empresas. Uma empresa quebrada não gera renda, tem mais dívidas do que patrimônio e dificilmente conseguirá manter operando. Ou seja, é o fim da da linha para a empresa.

Um sinal de que este cenário está para acontecer é quando as companhias começam a ficar insolventes.

O principal conceito de insolvência é a incapacidade da empresa em cumprir suas obrigações e manter suas atividades operacionais.

O resultado é uma fase momentânea, na qual a incapacidade de cumprimento das obrigações de curto prazo pode tornar o ativo totalmente incapaz de cobrir o passivo. Caso persista essa situação, a empresa pode ser levada à falência.

Os sinais de insolvência começam a aparecer alguns anos antes da empresa alcançar um nível crítico que leve à falência ou concordata. Ou seja o estado de insolvência não é um evento repentino, mas sim uma situação que vai se acumulando no decorrer dos anos.

Para nos auxiliar na avaliação deste tópico, há modelos de previsão de insolvência que são úteis como suporte à tentativa de antecipar potenciais problemas para as empresas.

Este texto está baseado em recente trabalho realizado pelos pesquisadores Mariane Bezerra Nóbrega (IFRN), Rodrigo Leite Farias de Araújo (IFPR) e Patrícia Lacerda de Carvalho (UFPB).

Situação do setor aéreo brasileiro

O impacto da pandemia foi devastador para o setor no segundo trimestre deste ano. De acordo com dados Infraero, a quantidade de passageiros caiu fortemente em 2020 quando comparamos com 2019.

A queda em março deste ano foi de 53,83%, em comparação com o mesmo mês de 2019. Enquanto que em abril e maio a queda foi maior ainda: 97,98% e 96,93%, respectivamente.

Fonte: Infraero

Apesar dessa forte queda, o perigo de insolvência do setor não reflete apenas os efeitos da pandemia do novo coronavírus. Conforme o resultado da aplicação dos modelos de previsão de insolvência nos anos anteriores, percebeu-se que o problema já vinha de antes.

Resultados do estudo

A pesquisa dos autores pega dados referente ao período de 2017 a 2019 – momento em que o país apresentava maior estabilidade financeira – e ao primeiro trimestre de 2020 – início da crise do COVID-19 -, totalizando 13 trimestres analisados.

As especificações dos modelos de insolvência utilizados são resumidas na tabela a seguir.

Resumo dos modelos de insolvência.

Considerando todos os modelos, em apenas dois (Kanitz e Kasznar) as empresas não apresentaram insolvência em nenhum dos trimestres. Mesmo assim, nestes dois casos, os modelos geraram uma classificação de “penumbra/inconclusivo”. Nos outros três modelos (Elizabetsky, Altman, Baidya e Dias e Sanvicente e Minardi), tanto Gol quanto Azul apresentaram insolvência em todos os 13 períodos analisados.

Diante disso, os resultados pendem para o negativo, com evidências que indicam que ambas as empresas apresentam perspectivas ruins de cumprimento das obrigações correntes. Isso sugere que as perspectivas de sobrevivência das duas empresas são ruins, tendo em vista o consenso entre a maior parte dos modelos analisados.

Há luz no fim do túnel

Apesar do cenário ruim previsto pelos modelos, ainda há esperanças. O setor aéreo é um dos mais fundamentais para o país. Com isso em mente, a medida provisória 925/2020, que estabelece as regras para a ajuda ao setor aéreo, foi aprovada no dia 15 de julho na câmara dos deputados.

O texto prevê medidas de amparo às companhias aéreas, às concessionárias de aeroportos e aos trabalhadores aeroviários durante a pandemia de coronavírus, além de tratar do reembolso de passagens aéreas.

Segundo o projeto, o Fundo Nacional da Aviação Civil (Fnac) poderá emprestar recursos às empresas do setor aéreo que comprovem prejuízo devido à pandemia. Entre elas, as companhias aéreas de voos regulares, como Gol e Azul, as concessionárias de aeroportos e os prestadores de serviço auxiliar.

Este pacote de crédito, a ser concedido pelo BNDES e demais instituições financeiras, será fundamental para garantir o pagamento de obrigações de dívida e manter gastos operacionais das companhias até que a situação retorne ao normal.

Vale ressaltar que este texto não é uma recomendação e nem um prenuncio de uma tragédia para o setor. Empresas aéreas são complexas e, portanto, vários outros fatores são necessários para que o investidor leve em conta na escolha por comprar ou não os ativos do setor.

Referência bibliográfica

NÓBREGA, Mariane Bezerra; DE ARAÚJO, Rodrigo Leite Farias; DE CARVALHO, Patrícia Lacerda. Indicadores de insolvência de empresas de transporte aéreo de capital aberto e a pandemia da Covid-19.

Autor: Tales Rabelo Freitas

Doutor em Desenvolvimento Econômico da UFRGS, Mestre em Teoria Econômica pela UFES e Graduado em Ciências Econômicas pela UFSJ. Realizo pesquisas sobre economia institucional, macroeconomia, mercado financeiro, economia brasileira e desenvolvimento econômico.

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