“Mercado financeiro” quer mais compromisso do Brasil, mas também não ajuda

Eventos recentes dão a impressão de que Paulo Guedes cedeu à agenda política de Bolsonaro

Até o momento, Bolsonaro tem sido um péssimo gestor e político. Não conseguiu delinear um plano de ação junto com Paulo Guedes. A condução das reformas tem sido dramática. Escândalos de corrupção e interferências políticas tem sido a regra nos últimos tempos.

Soma-se à isso a insensibilidade do presidente com questões importantes como o meio ambiente, o tratamento da pandemia da covid-19 e sua visão preconceituosa sobre negros e minorias.

Entretanto, no que tange a política macroeconômica, a condução tem sido exemplar, no que se refere ao paradigma neoliberal.

A exceção ocorre por conta dos fatos recentes. Sobre estes, temos o aumento de gastos com o enfrentamento da pandemia e a tendência de Bolsonaro se afastar do compromisso com o paradigma neoliberal.

Diante disso, os agentes do mercado financeiro têm tecido fortes críticas ao que pode se tornar a nova agenda macroeconômica do país: um desenvolvimentismo capenga e populista.

Porém, a decisão de Bolsonaro é até justificável.

Desde 2015 o país vem seguindo à risca a receita fornecida pelo sistema financeiro. Instituiu-se uma lei que limitasse o crescimento dos gastos públicos para os próximos vinte anos. Cortou-se investimentos públicos. Realizou-se reformas liberais, como a trabalhista e a previdenciária.

Ainda neste sentido, mais duas reformas encaminhadas: a administrativa e a tributária.

Ou seja, a agenda de reformas e de corte de gastos já dura cinco anos. O que isso nos trouxe de positivo?

Como sabemos, o PIB do país continua estagnado, e pior, está ao mesmo patamar de 2009.

PIB per capta (dólar): Banco Mundial

Outra evidência de que as coisas não andam bem é a taxa de desocupação, que também avança, atingindo 13,8% na última medição de julho de 2020.

Taxa de desocupação: Ipeadata

A estagnação também aparece quando analisamos o comportamento dos investimentos (formação bruta de capital fixo) nos últimos anos.

FBCF: Ipeadata

Lógico que não dá para esperar patriotismo do mercado, como chegou a pedir Bolsonaro. Mas como esperar compromisso com uma agenda que já há cinco anos não entrega resultados?

Infelizmente a especulação sobre a mudança de rumo da condução da política macroeconômica se dá mais por causa de uma motivação eleitoreira e populista do que derivada de um projeto pensado e articulado para atender a urgência de desenvolvimento do país.

O resultado pode ser perverso uma vez que os gastos estão sendo feitos de forma dessincronizada com os demais setores da sociedade.

Por fim, tem-se também incertezas quanto a conduta da “nova” política econômica. Como vai ser? Vai furar a regra do teto de gastos? Vai ter novas regras? Se sim, como elas serão?

Tudo isso segue sem respostas.

Autor: Tales Rabelo Freitas

Doutor em Desenvolvimento Econômico da UFRGS, Mestre em Teoria Econômica pela UFES e Graduado em Ciências Econômicas pela UFSJ. Realizo pesquisas sobre economia institucional, macroeconomia, mercado financeiro, economia brasileira e desenvolvimento econômico.

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