Os dramas cambial e inflacionário no Brasil: a volta dos que não foram

Recentemente tem havido nova preocupação com uma possível disparada do câmbio. Ontem (20/10/2020) foi necessário intervenção do Banco Central (BC) quando o dólar começou a subir acima de 2%.

Uma das preocupações principais é de que a subida das moedas estrangeiras impacta na inflação. Quando o dólar sobe tudo fica mais caro. Desde o arroz e o feijão, até os smartphones e TVs.

A inflação, por sinal, parece ser uma doença crônica do nosso país, marcada na alma de todo brasileiro. Até mesmo aqueles que não viveram o drama dos anos anteriores ao Plano Real (como este que vos escreve, pois nasci em 1990) sabem do quão sério é o problema da inflação.

Relembrando a história

Quem prestou um pouco de atenção nas aulas de história do ensino médio conhece bem como o Brasil lutou pra conter a inflação ao longo de toda a sua existência como nação independente.

Desde o período colonial até a década de 1930 o Brasil vivia de exportações. No início predominava o açúcar, mas com o tempo foram incluídos outros produtos, como o ouro, a borracha e o café. Este, por sua vez, foi o principal produto de exportação a partir do século XIX.

No geral, exportávamos café pra comprar o restante das coisas necessárias para a vida cotidiana: tecidos, roupas, bebidas, ferramentas entre outros.

Até meados do século passado, Brasil era sinônimo de café.

Isso nos gerava problemas. Quando o preço do café no mercado internacional estava em alta era ótimo pois o país conseguia recursos de sobra pra comprar tudo aquilo que queria. Mas esse não foi o cenário que prevaleceu.

Com a crise financeira de 1929, houve forte queda no preço do café. Isso gerou dificuldades para conseguirmos importar os bens de consumo demandados pelo povo.

Diante deste problema, o país teve que começar a mudar a estratégia que sempre ditou a dinâmica econômica até então. Foi necessário contornar a “maldição” da vocação agrária e tentar produzir internamente os produtos manufaturados que se comprava de outros países.

À essa mudança de orientação econômica se deu o nome de Processo de Substituição de Importações (PSI).

Processo de substituição de importações

O PSI durou dos anos 30 até a década de 80, e teve grande destaque a participação dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel.

Getúlio Vargas, JK e general Ernesto Geisel.

O PSI abrangeu um conjunto de políticas diversas que visavam o incentivo à industrialização do país, também chamado de paradigma desenvolvimentista. As medidas foram desde a concessão de subsídios de importação de máquinas e equipamentos, passando pelo financiamento público dos empreendimentos privados, incentivos para atração de investimentos estrangeiros, até a construção de empresas estatais.

Entretanto, esse processo não foi fácil. O PSI encontrou várias dificuldades. Embora tenha conseguido avançar no setor industrial, a dependência das commodities continuou, pois estas ainda prevaleciam na pauta exportadora.

Mesmo se industrializando o país ainda dependia das importações, pois a indústria nacional ainda não conseguia abranger todas as necessidades da sociedade.

Para se industrializar era necessário importar bens de capital. A deterioração dos preços das commodities no mercado internacional gerava dificuldades, fenômeno que ficou conhecido como estrangulamento externo.

Autores da chamada corrente estruturalista, que têm Celso Furtado como principal expoente, dizia que a inflação brasileira não era devido a demanda ser maior do que a oferta, mas sim causada por fatores estruturais. Ou seja, dependência de exportações de produtos agrários para importação de manufaturados.

Pra conter isso, era necessário romper com a dependência do mercado internacional e avançar no desenvolvimento da estrutura produtiva nacional.

Resultados e fim do PSI

Como resultado do PSI, tivemos a expansão da participação da indústria no PIB, que durou até a década de 1980.

Participação da indústria no PIB.

Outro resultado foi o aumento da relevância econômica do Brasil, com a elevação a participação do PIB do país no PIB mundial.

Participação do PIB brasileiro no PIB mundial

Entretanto, os choques do petróleo, nos anos 70, e a crise da dívida pública, nos anos 80, impediram a manutenção da política desenvolvimentista.

No seu lugar foi recomendado a agenda neoliberal, que ganha força em 1989 com o Consenso de Washington, que foi um receituário feito por economistas ortodoxos do FMI para orientar a política econômica dos países.

A política econômica então passa a perseguir o chamado tripé macroeconômico: 1) política fiscal voltada para a geração de superávits fiscais; 2) implementação da política de câmbio flexível (em detrimento do câmbio administrado que era usado para beneficiar as exportações); 3) política monetária com objetivo único de conter a inflação.

Desta forma, não era mais recomendável os países tentarem induzir a industrialização. A solução deveria ser deixada para o mercado, cabendo aos governos se preocuparem apenas com a inflação (esta considerada apenas como um fenômeno de demanda pelos economistas ortodoxos).

Como resultado, tivemos, a partir dos anos 90, a queda da participação da indústria no PIB como também da relevância do Brasil no PIB mundial.

Já a inflação foi controlada, embora sua ameaça não tenha sido aniquilada. Hora ou outra ela volta para nos lembrar de que o problema não desapareceu. Em 2002, último ano do governo de Fernando Henrique, a inflação bateu os 12%. Já em 2015, no governo Dilma, levamos o susto quando a inflação passou os 10%.

Em ambos os casos o responsável principal foi a disparada do câmbio, que, por sinal, volta a nos atormentar, uma vez que o dólar vem se aproximando da casa dos R$6,00.

A fragilidade da estrutura nacional, dependente de exportações de commodities, cujo preço é volátil, gera receios também no mercado financeiro, cujo resultado é a intensificação dos movimentos especulativos.

Tudo isso é um problema para os consumidores brasileiros, que vêm seu poder de compra oscilar constantemente, e para os empresários, que, devido à incerteza elevada, temem realizar investimentos produtivos.

A saída é pela (re)industrialização

Diante disso, o argumento desenvolvimentista é de que o fantasma da inflação jamais será superado sem antes desenvolvermos nossa estrutura produtiva, avançando sobre o setor industrial.

A indústria manufatureira tem vantagens sobre as commodities por possuírem menor volatilidade de preços. Enquanto que a soja brasileira apresenta as mesmas propriedades da soja dos EUA, o mesmo não se verifica quando comparamos um iPhone e um celular da Samsung, por exemplo.

As especificidades dos ativos industriais permitem estratégias diversas e o resultado é a menor exposição às oscilações diárias dos mercados globais.

Outro ponto é que, enquanto que a demanda por soja, café, arroz, feijão e demais commodities pouco aumentam em função da renda, o mesmo não acontece com produtos manufaturados. É normal ver as pessoas trocando o celular, o carro ou comprando novas roupas sempre que têm ganhos salariais, mas o mesmo não ocorre para a compra de arroz e feijão.

Levando em conta estes fatores, e muitos outros não citados neste texto, o desenvolvimentismo prega que o avanço da indústria diminuiria a dependência das exportações de commodities, que são produtos muito voláteis e de baixo valor agregado. Isso, por sua vez, mitigaria parte relevante do impacto das oscilações do câmbio na inflação doméstica, além de abrir caminho para a promoção de exportações de produtos de maior valor agregado e com preços mais estáveis.

Agora, a questão de como essa agenda seria colocada em prática, considerando o debate econômico e político atual, é um debate pra outra hora.

Referências bibliográficas

FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Vargas: o capitalismo em construção, 1906-1954. Editora Brasiliense, 1989.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo, Nacional, 1971 [Cap. 30-32].

PREBISCH, Raul. Dinâmica do Desenvolvimento Latino-Americano. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1964.

TAVARES, Maria da Conceição. “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil”. In: Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro. Rio de Janeiro, Zahar, 1972. p. 29-58.

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