Caminhos para o desenvolvimento: o caso de Cláudio (MG)

Igreja Matriz, no centro da cidade de Cláudio (MG)

Cláudio é uma cidade pequena do centro oeste mineiro, com população estimada de 28 mil habitantes. Apesar do seu tamanho, é um importante polo de fundidos artesanais, considerado um dos maiores da América Latina.

A cidade também abarca muitas empresas do setor metalúrgico, de modo que tanto fundição quanto metalurgia são responsáveis por quase metade dos empregos da localidade.

Isso é visto nos dados abaixo, que mostram a participação de cada setor na concessão de emprego da cidade.

Participação dos setores no emprego local.

A dominância do setor manufatureiro é de longa data, concentrado nos ramos de fundição e metalurgia, e cuja composição se manteve praticamente inalterada nas últimas décadas.

Os dados abaixo mostram que desde 2003 o setor de transformação (indústria) tem sido dominante no fornecimento dos empregos da cidade, seguido pelo comércio.

Participação dos setores no emprego local ao longo do tempo.

Geralmente, a literatura sobre desenvolvimento econômico avalia como positivo a forte presença industrial na sociedade, fato que conferiria boas perspectivas para Cláudio.

Entretanto a estrutura produtiva claudiense está situada em setores de média-baixa intensidade tecnológica, o que implica em baixo dinamismo econômico, com empregos de baixa remuneração, baixa capacidade de inovação e dificuldades de inserção em cadeias produtivas de maior valor agregado.

Vejamos alguns problemas enfrentados pelo setor e pelas empresas da cidade.

Cenário nacional e perspectivas para o setor de fundição

O setor de fundição é uma atividade que, no agregado, vem apresentando quedas consistentes de produção nos últimos anos, conforme dados divulgados pela Associação Brasileira de Fundição (Abifa).

Fonte: Abifa

O baixo dinamismo do setor é confirmado pela estagnação das exportações, verificado no gráfico abaixo. A queda das exportações de 2020 representa o forte impacto sofrido pela crise do novo coronavírus, que afetou todos os setores do comércio internacional.

Fonte: Abifa

Barreiras para o desenvolvimento de Cláudio: baixa remuneração e ausência de cooperação

Embora Cláudio seja considerada um importante polo do setor fundiário e metalúrgico, a cidade não consegue converter esse cenário em desenvolvimento econômico.

Desenvolvimento econômico é entendido como um fenômeno que gera mudanças qualitativas na estrutura produtiva ao longo do tempo. Tais mudanças devem ser no sentido de aumento de produtividade dos fatores de produção e melhorias nas condições de trabalho e das remunerações.

O que vemos em Cláudio é um cenário de baixa remuneração, que, por sua vez, é reflexo das dificuldades do setor em avançar em atividades de maior complexidade e valor agregado.

Cláudio, em específico, apresenta mão de obra mal remunerada, quando comparado com outras localidades que têm importante participação do setor fundiário. Abaixo segue o exemplo da tabela de salários de um moldador de fundição. Verifica-se que o trabalhador claudiense só não é pior remunerado do que os de Venâncio Aires (RS).

Fonte: salário.com.br

Para entender os motivos disso é preciso estudos mais aprofundados, voltados especificamente para analisar as dificuldades da região.

A última pesquisa neste sentido foi realizada em 2013 pelas pesquisadoras Pâmella Gabriela Oliveira Pugas e Renata dos Santos Fernandes, da UEMG.

Embora a pesquisa esteja defasada, as conclusões que elas chegaram podem nos dar algumas perspectivas de investigação e de proposição de política para o desenvolvimento local.

Vejamos as principais conclusões que as autoras chegaram na época, a partir de análise de entrevistas de uma amostra de 30 industriais locais.

1) Escassez e baixa qualificação da mão de obra:

“Com relação à qualificação da mão de obra, 80% concordam que existe qualificação, porém não é suficiente, considerando a necessidade do setor. Quando questionados sobre o custo de mão de obra, a maioria acredita que o custo é alto, porém a elevação do custo estaria mais relacionada à falta de mão de obra do que a sua especialização.”

2) Falta de cooperação:

“A maioria das empresas não realiza parcerias para desenvolver novos produtos e processos, porém uma parte das empresas já se atentou para o benefício de estabelecer tais parcerias.”

 “(…) 58% das empresas consideram poucas as informações obtidas no aglomerado. Enfatizando tal fato, a maioria (75%) acredita que as informações existentes não favorecem a entrada de novas empresas.”

3) Falta de assessoria para implementar inovação e inserção em novos mercados:

“Grande parte das empresas (70%) aponta que há pouca mão de obra especializada e pouca assessoria tecnológica disponível.”

“As empresas que ainda não atuam no mercado internacional apontam que não o fazem pelo fato de não haver uma estrutura adequada de apoio gerencial, e até mesmo pela impossibilidade de aumentar a produção. Com relação à facilidade para atender aos novos mercados, 50% das empresas acreditam que existe essa facilidade, e a outra metade acredita que não.”

4) Problemas de financiamento:

“Todas as empresas concordam que há atuação das instituições financeiras, porém 38% consideram que essa atuação ainda é pequena.”

5) Há baixa externalidade de rede, ou seja, o aglomerado local gera poucas vantagens para o resultado individual de cada empresa:

“(…) analisando as externalidades em rede, observou-se que a maior parceria existente é com os clientes e prestadores de serviço. Para as empresas entrevistadas, a parceria com os fornecedores ocorre, mas 58% delas apontam que tais parcerias ainda são poucas. Com relação às parcerias com os concorrentes, apenas 28% consideram as mesmas relevantes. As parcerias com os concorrentes acontecem no compartilhamento da produção e nas informações sobre a mão de obra.”

“(…) a maioria acredita que associar a localização à sua marca não impacta nem nas vendas nem nas compras.”

Possibilidades de avanço

Embora as perspectivas para o setor como um todo não sejam a das melhores para os próximos anos, há caminhos para a cidade de Cláudio tentar melhorar sua dinâmica econômica, tanto no cenário nacional quanto internacional.

A presença de várias instituições na cidade contribui fortemente para as possibilidades de construção de medidas em prol do desenvolvimento local.

Atualmente, a cidade de Cláudio conta com um posto tecnológico avançado do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que contribui de maneira relevante para o setor com análises laboratoriais e cursos de aperfeiçoamento.

Também devemos citar a Cooperativa de Economia e Credito Mútuo dos Metalúrgicos de Cláudio (SICOOB COPERMEC), que é uma importante fonte de financiamento para as atividades locais.

Outra instituição que apresenta papel relevante é a Associação das Indústrias Metalúrgicas de Cláudio (ASIMEC). Esta, em específico, é fundamental para a materialização de qualquer intensão de organizar os anseios do empresariado local e trabalhar no sentido de construir medidas voltadas para o desenvolvimento da estrutura produtiva.

A participação da prefeitura também é fundamental, conforme já abordado em texto passado neste site.

Por fim, a atual época de campanha política para prefeito e vereadores é um momento oportuno para discutir questões sobre desenvolvimento econômico, que por sinal é um tema negligenciado pelos candidatos e a população local, mas que é bastante pertinente para o bem-estar de todos.

Este autor que vos escreve tem iniciado, junto com outras pessoas, um grupo de discussão e pesquisa para tentar incorporar melhor este assunto no debate político local. Este esforço também tem sido verificado em Divinópolis, vide a cartilha “Plano de desenvolvimento Divinópolis 2030”. Para aqueles que tiverem interesse em participar é só entrar em contato pelo número (37) 99197 7722 (ligação ou whatsapp), ou email tales.rabelo@hotmail.com.

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