Baixa remuneração e produtividade: Cláudio (MG) e o subdesenvolvimento

Em texto anterior neste site foi abordado a situação atual da cidade de Cláudio (MG), que é um importante polo industrial do setor de fundidos artesanais, mas que sofre com diversas barreiras que impedem as melhorias na estrutura produtiva local.

Cláudio é uma cidade que domina o mercado de peças de fundição. Temos empresas que fabricam desde produtos simples, como panelas e anilhas de academia, até produtos mais sofisticados, como peças para maquinários e automóveis.

Entretanto, na média, a cidade apresenta uma das piores remunerações entre as localidades que têm importância no setor fundiário.

Abaixo podemos comparar os salários de três tipos de empregos bastante presentes nas fundições em diversas cidades. Em todas elas, a cidade de Cláudio está entre as que apresentam pior remuneração da sua mão de obra.

Como mostrado no texto passado, embora a cidade apresente baixa taxa de remuneração, os empresários argumentam que a mão de obra local é cara. Diante disso, caímos naquele jargão falacioso que argumenta que o salário é pouco para quem recebe e caro para quem paga.

Como resolver este problema?

É preciso melhorar a produtividade

A única saída é através do desenvolvimento econômico. Se o trabalhador custa caro para o empresário, então é necessário repensar a estratégia atual. É preciso que as empresas tentem se inserir em cadeias produtivas de maior valor agregado.

Simplificando o argumento, é necessário aproveitar melhor a mão de obra, direcionando-a para produzir produtos que serão vendidos com margens de ganho maiores.

Para isso, há duas saídas: 1) diminuir os custos fixos, como gastos com administração, logística, aluguéis, e outras coisas mais; 2) aumentar o preço dos produtos vendidos.

O último ponto geralmente é a principal escolha quando se pensa em desenvolvimento econômico. Parar um produto ser vendido mais caro ele precisa ter qualidades adicionais que os produtos baratos não têm.

Empresas que fabricam peças de alta complexidade para automóveis e maquinários, ou móveis com arquitetura de alto padrão, ou ainda utensílios domésticos inovadores, conseguem ter maior retorno por trabalhador em comparação com aquelas que optam por produzir coisas simples e com pouca capacidade de diferenciação.

Por sua vez, as empresas mais produtivas poderão pagar mais aos seus funcionários, além de haver incentivos para que estes se especializem e se preparem mais.

Este tipo de avanço gera custos, como gastos com marketing, pesquisas e desenvolvimento de novos produtos e processos, logística adequada, padronização dos processos, entre outras coisas mais.

Porém, estes custos geram desenvolvimento na medida em que são necessários para a sua execução a contratação de mão de obra altamente especializada. Um avanço neste sentido contribuiria, por exemplo, para a retenção dos jovens talentos, que todos os anos saem da cidade para buscar novas oportunidades.

Definido o problema e como resolvê-lo, o desafio é como transformar isso em realidade, visto que falar é mais fácil do que fazer, não é mesmo?

Cooperação e projeto de desenvolvimento local

O desenvolvimento econômico é um processo que não é fácil. Requer esforço de todos, dos empresários, trabalhadores, das instituições locais e principalmente da administração pública.

Primeiramente é preciso amplo estudo para compreender as especificidades de cada setor e de cada comunidade. É preciso entender a mentalidade do empresariado local, as capacidades técnicas dos trabalhadores e também do papel das instituições.

Aqui falarei sobre a importância das instituições, visto que os dois primeiros fatores (mentalidade empresarial e capacidade técnica do trabalho) são fatores dados.

Cláudio é uma cidade que apresenta instituições importantes para a execução de qualquer projeto de desenvolvimento. Temos uma cooperativa de crédito (SICOOB). Temos uma associação empresarial forte (ASIMEC). Temos dois centros de pesquisa que podem atuar fomentar as necessidades de pesquisa e desenvolvimento de processos (SENAI e UEMG).

Estas instituições, juntamente com os trabalhadores e os empresários, e articuladas com a prefeitura podem fornecer incentivos e facilidades (economias de custos) para a execução de um projeto de desenvolvimento local.

Uma vez estabelecido o interesse entre todos os que foram citados, poderíamos avançar em várias frentes, como:

1) Integrar o conhecimento disperso na região, através da criação de centros técnicos que buscarão economizar custos com pesquisas e desenvolvimento, além de gerar inovação.

2) Formar alianças para ampliar o poder das empresas locais frente aos fornecedores e compradores em comum (elevar poder de mercado).

3) Integração entre os projetos individuais, visando o controle de risco e redução de custos de execução.

4) Melhorar as condições para a captação de financiamento.

5) Criação de eventos e missões externas para atrair demanda e financiamentos, visando integrar as empresas locais em cadeias produtivas de maior valor agregado.

6) Realização de consultorias técnicas para melhorar a produtividade e a padronização dos processos.

Tudo isso é complexo e requer muito trabalho, mas se não pararmos para pensar sobre a questão do desenvolvimento econômico vamos permanecer sendo apenas um polo artesanal de fundidos que, constantemente, remunera mal nossos trabalhadores, gera desigualdade de renda e poucas oportunidades para nossos jovens e adultos desenvolverem seus talentos.

Textos de interesse já publicados aqui:

Há espaço para o desenvolvimento econômico na política municipal?

Caminhos para o desenvolvimento: o caso de Cláudio (MG)

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