O industrial brasileiro: uma breve revisão de literatura

A mentalidade do empresário industrial brasileiro foi tema de forte debate nos anos que compreenderam a década de 1940 até finais dos anos de 1970. A discussão principal era se o empresariado nacional se constituía como ator econômico com poder político e interesse fortes suficientes para liderar uma revolução em prol da modernização da estrutura produtiva nacional e a transformação da trajetória de desenvolvimento, voltada para a industrialização em detrimento do foco no setor agrário exportador.

Usina Beltrão (Fábrica Tacaruna), no Recife. Inaugurada em 1895, foi a primeira refinaria do Brasil e da América do Sul.

A ideia dominante foi de que a burguesia nacional teria pouco vigor empreendedor, uma mentalidade pré-capitalista, patrimonialista e deficiência organizativa, além de uma ideologia que implicava em um comportamento voltado para a passividade política.

Desta forma, argumenta-se que estes fatores foram responsáveis pelo fato da burguesia industrial não ter apresentado força política para se tornar uma classe hegemônica dentro da sociedade brasileira.

Embora haja algumas distinções, os trabalhos de maior destaque foram os escritos de Oliveira Vianna (1987), Fernando Henrique Cardoso (1963), Luciano Martins (1968), Florestan Fernandes (1987), Nelson Werneck Sodré (1967), Caio Prado Júnior (1966) e Luiz Carlos Bresser-Pereira (1974).

Oliveira Viana

Para Oliveira Vianna (1987), o empresário brasileiro distinguia fortemente do tipo que vigorava no capitalismo norte-americano e europeu. O argumento era de que a burguesia industrial apresentava diversos traços pré-capitalistas, cuja característica principal era a persistência de hábitos que impediam a reprodução do capital em grande escala.

Conforme o autor, o sistema de governança corporativa prevalecente no país era o de empresas de organização familiar, enquanto que nos EUA dominava a estrutura de sociedades anônimas, na qual a posição da classe de administradores profissionais ganhava destaque na tomada de decisões em detrimento da figura patriarcal que ainda imperava sobre as empresas brasileiras.

Isso implicava em distinções no que tange os objetivos das empresas nacionais em comparação com a dos países de capitalismo avançado. Nestes, a busca por lucros cada vez maiores contrastava com o “objetivo modesto de apenas assegurar aos seus proprietários e dirigentes, possivelmente a riqueza, mas principalmente os meios de subsistência e também uma classificação social superior – a do status de ‘industrial’” (p. 194).

Fernando Henrique Cardoso (FHC)

Caminho semelhante se verifica na obra de Fernando Henrique Cardoso (1963), intitulada “Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico no Brasil”. O autor analisa o comportamento dos empresários a partir da uma tipologia que abrange duas categorias: o de capitães de indústria e de homens de empresa.

Os industriais que compreendem o primeiro tipo, são aqueles que administram suas empresas a partir de critérios pessoais, cujas práticas são consideradas irracionais perante os empreendimentos das grandes organizações dos países de capitalismo avançado.

Estes dirigentes que “se orientam por valores tradicionais e se acomodam às condições rotineiras da produção industrial” constituem, por sua vez, “a maior parte dos responsáveis pela indústria brasileira tomada em conjunto” (p. 139). O seu interesse é exclusivamente pecuniário, ou seja, “são mais afeitos aos negócios do que à produção” (p. 136).

É hábito comum deste tipo de agente “desviar parte do lucro obtido para a compra de imóveis ou para a remessa de dinheiro para o exterior”, podendo afirmar que “as atividades que desenvolvem não podem ser consideradas ‘empresariais’” (p. 136.).

Já os chamados “homens de empresa” foram caracterizados por Cardoso (1963) como dotados de uma mentalidade mais impessoal no que se refere ao trato com a administração da organização, dando um ar de racionalidade e cientificidade superior em relação ao tipo de administrador tradicional.

Estes agem em linha com um processo de “metodização do trabalho, especialização de base tecnológica da produção, expectativa de lucros a prazos médios e espírito de concorrência” (p. 140).

Visconde de Mauá (1831-1889) talvez tenha sido um dos poucos grandes industriais brasileiros que fugiram à regra, conforme a tese de FHC. Mauá foi pioneiro em várias áreas da economia do Brasil. Dentre as suas maiores realizações encontra-se a implantação da primeira fundição de ferro e estaleiro no país e a construção da primeira ferrovia brasileira.

Entretanto, o que os distingue dos tradicionais capitães de indústria predominantes no Brasil é o “espírito que anima estes homens na realização das atividades industriais”, de modo que, “no plano da fábrica são movidos pelo desejo de construir uma ‘indústria verdadeira’, no plano da visão geral que têm do mundo, desejam construir o capitalismo no Brasil” (p.141).

Luciano Martins

Para Luciano Martins (1968), os empresários industriais do Brasil se constituíam em uma classe desarticulada tanto no que se refere à atuação política quanto na formação de uma ideologia.

Para o autor, estes agentes eram subordinados aos desígnios de um Estado controlado por elites agrárias e eram desinteressados na empreitada de assumir uma posição hegemônica na sociedade.

Consequentemente, a apatia da classe industrial brasileira na tentativa de tomar o controle dos centros de decisão dos rumos da nação se estabelecia como um entrave para o desenvolvimento, uma vez que se coloca a industrialização como polo dinâmico da economia.

A incapacidade histórica da burguesia industrial, tomada em seu conjunto, em formular um projeto nacional, seja pela sua dependência ao ‘capitalismo central’ ou aos grupos internos detentores do Poder, seja pelo divórcio criado no processo entre a racionalidade ao nível da empresa e a racionalidade ao nível da sociedade, torna para ela impossível a implantação de um sistema de dominação seu que seja capaz de obter a necessária legitimação. Constitui-se ela ainda mais, e já agora, num obstáculo ao desenvolvimento.

MARTINS, 1968, p. 160-161

Nelson Werneck Sodré

Nelson Werneck Sodré (1967) segue a linha preconizada pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro), caracterizada por atribuir ao empresariado industrial a necessidade de demonstrar ímpeto industrializante e um comportamento economicamente moderno e socialmente progressista.

Neste sentido, deveriam os empresários se aliarem à classe operária no intuito de promover a libertação da nação dos interesses imperialistas. Além disso, também teriam que liderar um movimento que antagonizasse com os setores do latifúndio.

A avaliação do autor foi de que a burguesia nacional foi fraca e ideologicamente inconsistente, e que o medo da pressão do proletariado era mais forte do que as pressões experimentadas pelo imperialismo e da oligarquia agrário exportadora.

Florestan Fernandes

Florestan Fernandes (1987) mostrou que a burguesia nacional que emerge a partir do século XIX se constituía como uma classe com interesses alinhados aos do latifúndio.

Para o autor, “este [o empresário] provinha de um forte condicionamento da ordem social escravocrata e senhorial, que produzia a identificação dos estratos sociais vinculados ao ‘alto comércio’ com as estruturas de poder existentes” (p. 220).

Desta forma, assim como os demais autores já citados, a burguesia não apresentava uma consciência necessária para liderar um movimento revolucionário que rompesse com a ordem vigente de dominância do setor agrário sobre os rumos do país.

O que se desenrolava, segundo Florestan, era uma “revolução dentro da ordem”, na qual a classe industrial intencionava “uma evolução com a aristocracia agrária e não contra ela” (p. 220.).

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Para Bresser (1994), a maioria destas interpretações, com exceção de Cardoso (1963), seguem as ideias aventadas por Caio Prado Jr. (1966). Ou seja, a ideia de que a origem do empresariado industrial estava na oligarquia cafeeira.

Para Caio Prado Jr (1966) “muitas das primeiras e principais indústrias são de fazendeiros que empregam os lucros auferidos na cultural do café, em iniciativas industriais” (PRADO JR. 1966, p. 198). Desta forma, ocorre que o sentido da ação empresarial não poderia contrapor os interesses das classes que lhes permitiram a ascensão.

Entretanto, Bresser (1974, 1994) verificou que os primeiros industriais eram originalmente imigrantes que se dedicavam à importação. Consequentemente, os interesses econômicos da classe empresarial eram conflitantes com os da oligarquia agrária, além de terem desempenhado um importante papel de liderança no processo inicial de industrialização do país.

Imagem antiga da Casa das Caldeiras, onde funcionou um parque industrial das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRMF) -
                                                    Casa das Caldeiras
Os empreendimentos de Francesco Matarazzo ilustram bem o argumento de Bresser-Pereira.

Porém, este comportamento se altera a partir do governo de Juscelino Kubitschek, de modo que os industriais brasileiros vão deixando de lado o interesse na promoção da Revolução Brasileira e se acomodando junto aos grupos conservadores.

O fator principal desta mudança de postura se deve ao recrudescimento do movimento sindical e o sentimento de necessidade de unir-se aos demais ramos das classes produtoras para se defenderem contra possíveis ameaças inspiradas na revolução cubana de 1959.

Considerações gerais

Mesmo separados por tradições intelectuais distintas, e com várias especificidades em cada análise, o argumento comum entre os autores aqui mencionados é de que havia certas deficiências na ação do empresariado industrial brasileiro, principalmente no que diz respeito à sua organização política enquanto classe.

No geral, a burguesia industrial não havia se constituído em classe dominante, como nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, onde elas se mostravam unidas e solidárias em sua consciência de grupo e na dominação do Estado.

Em termos gerais, o excessivo apego do empresariado aos interesses pessoais, em detrimento do pensamento no coletivo, implicou em uma ideologia burguesa que se tornou cega para uma visão mais ampla dos interesses do capitalismo brasileiro e, assim, incapaz de se tornar hegemônica e guiar os destinos da Nação.

Referências bibliográficas

BRESSER-PEREIRA, L. C. Empresários e administradores no Brasil. Editora Brasilience, 1974.

BRESSER-PEREIRA, L. C. Empresários, suas origens e as interpretações do Brasil. bibliotecadigital.fgv.br, 1994.

CARDOSO, F. H. Empresario industrial e o desenvolvimento economico do brasil. Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1963.

FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

MARTINS, L. Industrialização, burguesia nacional e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Saga, 1968.

PRADO JUNIOR, C. P. A Revolução Brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1966.

SODRÉ, N. W. História da burguesia brasileira. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

VIANNA, O. História social da economia capitalista no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987.

4 comentários

  1. Um debate que temos que voltar a fazê-lo. Qual o papel dos empresários para o desenvolvimento nacional,estadual e municipal? Qual legado querem deixar enquanto empresas? Quando analisamos a história das empresas, por todos os países, vemos que faltam (a grande maioria dos executivos) propósito, visão e entendimento do legado que querem construir e deixar junto a próxima geração. Nosso passado escravocrata nos responde muito dessas nossas dúvidas sobre o pensamento do industrial brasileiro.

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    1. Júlio exatamente. Analisando o cenário atual, de quê adianta as reformas e incentivos se o capital privado não tem a intensão de fazer a sua parte para engatar o ciclo virtuoso de crescimento e desenvolvimento? Resposta: adianta apenas para satisfazer os desejos dos rentistas.

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    1. Obrigado João Furtado pela sua leitura e comentário. Meu argumento vai em linha com os autores aqui apresentados, ou seja, a de que o empresário industrial brasileiro não tem interesse no desenvolvimento nacional. Gosto muito do livro do FHC, “Empresario industrial e o desenvolvimento economico do brasil”. Ali ele desnuda a real essência do pensamento do empresário nacional, argumentando que este sempre preferiu se aliar à elite agrária e ao capital internacional, em vez de tentar formar uma aliança com o proletariado e, a partir disto, buscar a modernização da estrutura produtiva a partir da imposição de uma agenda desenvolvimentista para a política econômica.

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