Reorganização produtiva acelera processo de desindustrialização no Brasil

Não é novidade que o Brasil enfrenta um processo de desindustrialização desde os anos de 1980. Economistas da ala heterodoxa argumentam que este fenômeno se deve pelo abandono das políticas desenvolvimentistas que vigoraram no país entre os anos de 1930 e 1980.

A partir dos anos 80 temos uma alteração no paradigma de política macroeconômica. O Brasil abandona o desenvolvimentismo e abraça o Consenso de Washington, que estabelece a recomendação de políticas de cunho ortodoxo.

O novo paradigma vai no sentido de orientar a política macroeconômica para buscar o único objetivo que é a estabilidade dos preços, sendo o crescimento e distribuição ficando ao cargo dos mecanismos de mercado. Com isso, o Brasil passou a adotar o chamado tripé macroeconômico, que é composto por três receituários básicos de política: 1) Regime de Metas de Inflação (RMI); 2) Superávits fiscais; 3) Câmbio flutuante.

Este conjunto de medidas foi responsável pelo abandono de políticas industriais mais efetivas e, assim, a queda da participação da indústria no PIB.

A não tão recente estagnação econômica e queda da demanda no Brasil, que vem se arrastando desde 2015, tem elevado a ociosidade industrial (diminuído a utilização da capacidade produtiva). As reformas introduzidas a partir de então, como a da previdência, a trabalhista e o teto de gastos públicos, não conseguiram alterar este cenário (se é que não contribuíram para piorar).

Essa ociosidade implica na necessidade das firmas de reorganizarem suas estruturas produtivas, fechando algumas unidades e concentrando a produção em outras.

Nos últimos dias tivemos a notícia da Ford, que optou por fechar suas fábricas no Brasil e direcionar a produção para a Argentina e Uruguai.

Mas a Ford não foi um caso isolado. Em 2019 tivemos fechamentos de fábricas da Pirelli e Nestlé. A primeira fechou sua unidade de Gravataí (RS) dizendo que iria promover uma reorganização nas unidades locais, em razão da situação difícil do mercado, com a consequente subutilização das fábricas. Assim, toda a produção de pneus para motos foi transferida para Campinas (SP) – que até então fabricava o equipamento só para automóveis.

Já no caso da Nestlé a justificativa foi a de que a crise econômica impactou na diminuição do consumo dos lácteos no país. A ociosidade verificada em sua fábrica de Palmeira das Missões (RS) levou ao seu fechamento e transferência da produção para Carazinho (RS).

Em 2020 o caso mais emblemático foi o da Sony, que decidiu por encerrar todas as suas atividades no Brasil em março de 2021, fechando sua fábrica localizada em Manaus (AM), com a demissão de 220 pessoas. A unidade operava no país há 36 anos.

Pontos de debate

Muitos economistas ortodoxos argumentam que a causa principal deste movimento é a ineficiência das cadeias produtivas locais, gerada por subsídios e demais incentivos dados pelo governo que criaram um clima de acomodação das empresas frente à forte competição internacional.

Entretanto, quando comparamos a conduta do Brasil em relação aos demais países vemos que a existência de incentivos para a produção industrial não é um fator exclusivo nosso. Países como Alemanha, China, Coreia do Sul, e o próprio EUA utilizam de um amplo conjunto de medidas protecionistas.

Talvez a diferença principal entre estes e o Brasil é que nos demais países a concessão de subsídios vem acompanhada de uma série de exigências às empresas. Alemanha, Coreia do Sul e EUA, por exemplo, têm concedido subsídios às montadoras de veículos com a contrapartida de que estes desenvolvam carros elétricos.

Já a China anunciou recentemente que irá reduzir 20% dos subsídios dados às fabricantes de carros elétricos. Entretanto, essa notícia chegou apenas após o setor ter apresentado números recordes de vendas em novembro. Ou seja, os subsídios têm um caráter objetivo e não definitivo.

Subcompacto elétrico da Cherry, empresa automobilística estatal da China.

Em todos estes países o conjunto de políticas que abrangem subsídios, medidas protecionistas e formas de financiamento tem gerado melhorias constantes em termos de modernização produtiva.

Sobre o problema brasileiro, o argumento de economistas desenvolvimentistas é de que o país deve aprender com estas experiências e realizar uma política industrial mais efetiva, dando incentivos ao setor industrial e, ao mesmo tempo, exigindo contrapartidas no sentido de elevar a inovação e modernização da produção.

Enquanto isso não acontece, vamos avançando no processo de desindustrialização, com especialização regressiva em commodities e comemorando venda de abacates.

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