Como pensa um economista ortodoxo (neoliberal)

Um dos embates mais notórios nas ciências econômicas é travada por economistas clássicos/neoclássicos (ortodoxos) e pós-keynesianos (heterodoxos). É principalmente nas disciplinas de macroeconomia e economia monetária que estas abordagens são trazidas à tona nos cursos de economia.

São vários os temas alvos desta disputa: determinação da renda, do emprego, da taxa de juros, do crédito, do investimento, entre outros. A importância deste debate é que é a partir dele que temos as principais recomendações de política para as economias capitalistas.

Na maioria das vezes, as falas de economistas liberais (por vezes chamados de ortodoxos) não fazem muito sentido aos olhos de um leitor de esquerda (por vezes associados à heterodoxia). Alguns inclusive questionam como é possível ter tal tipo de pensamento. 

Entretanto, o que parece ser besteira pode ter um fundamento teórico sério por trás, justificando as análises e recomendações feitas. Conhecer o que está nos bastidores das opiniões destes especialistas é fundamental para que possamos fazer as críticas de maneira devida, ou reconhecer as virtudes, quando for o caso.

Este texto apresentará apenas um modelo básico de macroeconomia neoclássica (ortodoxa), voltado para explicar como é determinado a quantidade de emprego e renda de uma economia, mas que, apesar de sua simplicidade, já nos dá uma base importante sobre como funciona a mente de um economista liberal (de cunho ortodoxo) e como ele pensa o sistema econômico.

O modelo clássico de determinação do emprego e da renda

Os economistas clássicos surgiram a partir do ataque contra o que era considerado o mainstream (visão dominante) até o século XVIII: o mercantilismo. O mercantilismo pregava que a riqueza era derivada do estoque de metais preciosos (ouro e prata), pois estes é que permitiriam comprar os produtos que a sociedade desejasse.

Em contraposição, os economistas clássicos defendiam que a riqueza vinha da produção e que eram as condições de oferta que determinariam a quantidade de coisas que a sociedade poderia possuir.

Para estes, desde que a sociedade tenha plena liberdade para negociar aquilo que foi produzido, as condições de demanda são relegadas à uma posição secundária, pois os mecanismos de mercado conseguiriam resolver o sistema, de modo que tudo o que seria produzido seria, consequentemente, demandado (Lei de Say).

O produto (y) e o emprego (N) no modelo clássico são determinados por três fatores (funções) diferentes:

y = F (K, N) (função da produção agregada)

Nd = f (W/P) (curva de demanda por trabalho)

Ns = g (W/P) (curva de oferta de trabalho)

Aqui, temos que o produto (y), o emprego (N) e o salário real (W/P, onde W é a medida de salários e P a medida dos preços) são variáveis endógenas, ou seja, determinados dentro do sistema. Enquanto o estoque de capital (K), que é o conjunto de máquinas e equipamentos utilizados para produzir, é exógeno, ou seja, uma variável dada/fixa, não explicada no modelo.

Vamos tentar entender melhor como estas funções afetam as variáveis de interesse: produto e trabalho.

Mercado de trabalho

Primeiramente, para resolvermos este modelo, e descobrir os valores de emprego e produto (renda) da sociedade, temos que encontrar o equilíbrio no mercado de trabalho (gráfico 1), que é expresso pela condição:

Oferta de trabalho (Ns) = Demanda por trabalho (Nd)

Neste modelo teremos uma quantidade determinada de trabalho que tanto os trabalhadores – representados pela curva de oferta de trabalho – quanto os empresários – que demandam trabalho, irão aceitar empregar na produção a partir do pagamento de uma quantidade determinada de salários (medido em termos reais W/P).

Graficamente, tudo isso pode ser ilustrado da seguinte forma:

Gráfico 1: Oferta e demanda de trabalho

Do lado da curva de oferta do trabalho, temos que, para cada nível de salário real, uma quantidade de trabalho é escolhida para ser ofertada, levando em conta o nível de utilidade derivada do consumo e do lazer.

Quanto mais o trabalhador trabalha, mais ele valorizará o seu tempo de folga, de modo que, para ele ofertar horas adicionais de trabalho, será necessário um pagamento maior de salários. Por isso a curva Ns é positivamente inclinada e com inclinação crescente.

Já do lado da curva de demanda por trabalho, temos uma relação contrária ao comportamento do trabalhador. Quanto maior o salário, maiores serão os custos e, portanto, menor será a demanda por trabalho.

O que define a quantidade de trabalho demandado em cada ponto da curva de oferta é a comparação entre a produtividade marginal do trabalho (PMgNi), que é o que o trabalhador entrega ao capitalista, e os salários reais, que é o que o empresário paga ao trabalhador. Desta forma, o empresário irá demandar trabalho até o ponto em que a PMgNi for igual ao W/P. Neste ponto, há o equilíbrio entre o que se paga ao trabalhador e o que se ganha da exploração do trabalho.

É a oferta que importa e não a demanda: função de produção agregada

Tendo disponível o nível de emprego e de salários, definidos pelo mercado de trabalho, basta agora descobrir a quantidade de produto que será realizado pelo sistema.

Para isso, deveremos utilizar a função de produção F(K,N), cuja representação está no gráfico abaixo.

Gráfico 2: determinação do produto

Esta curva mostra quanto de produto é entregue a partir de uma quantidade específica de trabalho utilizada no sistema produtivo. No caso, o valor N* é o valor que encontrado no mercado de trabalho. Este valor, ao ser jogado na função de produção F(N,K) nos entregará uma quantidade de produto (Y*) que será direcionada para o consumo da sociedade, e que será usada para pagar os salários e os lucros.

Neste modelo, temos que a renda e a quantidade de emprego da sociedade são definidos por questões relacionadas à oferta.

Alterações de demanda por produtos não aumentariam a produção. Isso porque haveria uma série de efeitos que se anulariam.

Por exemplo, a elevação da demanda causaria aumento dos preços, que iria incentivar o empresário a aumentar a demanda por trabalho.

Gráfico 3: alteração no nível de preços

Por outro lado, o aumento dos preços iria diminuir o valor dos salários reais recebidos pelos trabalhadores.

Neste caso, teríamos muita demanda por trabalho e pouca oferta de trabalho. Ou seja, iria faltar mão de obra na produção.

Pra incentivar os trabalhadores a aumentarem suas horas de trabalho seria necessário aumentos salariais para compensar o aumento dos preços. O aumento salarial iria gerar aumentos de custos para os empresários, o que iria anular os ganhos derivados do aumento de preços.

Desta forma, o aumento requerido para os salários seria tal até o sistema retornar ao ponto de equilíbrio, o qual gera um consenso entre trabalhadores e empresários sobre a quantidade de trabalho a ser empregada.

Implicação de política econômica: alteração nos salários

O modelo apresentado afirma que qualquer problema de emprego da economia deve ser resolvido pelo mercado.

Economistas neoclássicos, que utilizam deste modelo, afirmam que o problema atual de desemprego no Brasil é devido a rigidez presente nos contratos de trabalho, inclusive a fixação do salário mínimo.

O que temos hoje é pouca demanda por trabalho e elevada oferta de trabalho. Que é ilustrada no gráfico abaixo.

Gráfico 4: alteração nos salários

Sendo assim, temos que os salários atuais não tornam atrativos para o empresário contratar a quantidade de trabalhadores desejada pela sociedade. Seria necessário um mix de duas coisas: 1) aumento dos preços dos produtos ofertados, e/ou 2) queda dos salários nominais dos trabalhadores.

Neste sentido, os economistas liberais defendem reformas econômicas, como a trabalhista, que visam tornar mais flexível a negociação dos salários (e demais condições de trabalho) entre empregados e empresários.

Eles acreditam que isso fará com que o mercado se ajuste melhor e consiga empregar mais trabalhadores.

A contraposição de Keynes

Mais tarde, mais especificamente em 1936, Keynes veio questionar em sua “Teoria Geral” as implicações deste modelo a partir da incorporação da incerteza (além de outros elementos, mas fiquemos apenas com a incerteza por agora).

Podemos entender isso a partir destas duas perguntas:

1) Se incorporarmos o efeito da incerteza no sistema, como o capitalista poderia prever, com confiança, as condições de mercado para vender seus produtos e saber de antemão o nível de lucro que cada quantidade de trabalhador iria gerar?

2) Será que o empresário iria demandar trabalhadores com salários mais baixos mesmo sem saber se irá ou não vender sua produção?

Para Keynes, a incerteza muda radicalmente os resultados do modelo, pois a demanda por trabalho passará a ser resultado das expectativas de lucratividade do processo produtivo (eficiência marginal do capital), a qual é afetada pelo nível e demanda, que, por sua vez, não é conhecida previamente.

Assim, não sabendo quanto será a demanda, a economia poderá operar em um ponto de equilíbrio aquém do desejado pela sociedade, gerando mais desemprego do que seria desejado. É neste contexto que há a defesa da administração da demanda por parte do Estado.

Tudo isso é apenas o início de um longo debate travado entre heterodoxos e ortodoxos no campo da macroeconomia. Há muito mais além disso.

O objetivo deste texto foi apenas o de fazer uma introdução ao debate e simplifica-lo para aqueles que gostariam de entender um pouco sobre o tema mas sem a disposição de queimar os neurônios com as fórmulas e gráficos presentes nos manuais (embora acredito que não tenha conseguido eliminar toda a complicação).

6 comentários

  1. No título deveria constar apenas ‘ortodoxo’.
    Quando muito ‘libertarian’ para ajudar a distinguir na literatura americana, quem é quem.
    Neo-liberal…o que vem a ser isso?
    Os ‘liberals’ americanos, estão muito mais alinhados com o pensamento heterodoxo. Creio que os ‘neo-liberais mais ainda, se tal existir.
    Aparentemente o autor, muito condescendentemente, não nos considera ‘não tão maus assim’.
    Que bom ver que ‘do outro lado’ há pessoas que sabem que para combater melhor, melhor conhecer o ‘inimigo’.
    Quanto às ‘curvas’, preencheram espaço mas não deram muita substância.
    As maiores diferenças foram deixadas de lado.
    Preferimos a ‘visão trágica’ que a visão do ‘intelectual ungido’.
    O autor, com certeza, saberá ao que me refiro.

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    1. Marcio, muito pertinente suas colocações. Na verdade a ortodoxia que tratei no texto está mais para o pensamento neoclássico. A princípio, inclusive, havia deixado o título apenas o “ortodoxo” mesmo, mas queria adaptar para o debate da internet, o q talvez seria um equívoco meu. Quando digo neoclássico e ortodoxo, ninguém sabe sobre a quem estou me referindo. Por isso optei pelo termo neoliberal. Como a ampla maioria dos leitores do blog são brasileiros, não me preocupei com a confusão q possa ocorrer com os leitores norte-americanos.
      Concordo contigo também sobre a falta d alguns pontos, mas o texto já estava grande para um blog d internet. As pessoas têm preguiça d ler textos com mais d mil palavras. Tentei simplificar o máximo possível do debate e fechar uma conclusão sobre este tema. Inclusive tive o cuidado d dizer no texto q o debate está em aberto e q isso é apenas uma breve introdução, cabendo ao leitor curioso avançar nas leituras.

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      1. Ótimo texto Tales! Achei que para o público leitor você conseguiu ser bem didático, apesar das dificuldades em discutir o tema. Achei que faltou inserir um pouco mais das reformas propostas pelos ortodoxos e as políticas propostas pelos heterodoxos, apenas para ilustrar as diferenças.
        Parabéns pelo texto.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Valeu Adriano. Fico feliz que tenha curtido.
        Realmente, a questão das reformas poderia ser melhor abordado, mas achei que isso deixaria o texto muito grande e desestimularia a leitura. Tentei fazer o melhor possível dentro do limite d 1500 palavras. Além disso, eu teria q incorporar outras abordagens ortodoxas, o que deixaria o texto bem mais complexo.
        No mais, obrigado pelo comentário. Nos próximos textos tentarei abordar mais aplicações práticas da teoria.

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      3. Para um debate inicial sobre as duas correntes ficou muito bom.
        Apesar de que, classificar os keynesianos exclusivamente como sendo os “heterodoxos” acaba omitindo a divergência entre os que assim se denominam “Keynesianos” ( novos Keynesianos em tese estão dentro da nova síntese neoclássica). Fora isso, parabéns pelo texto Thales.

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      4. Obrigado Joás.
        É verdade, eu vou mudar esse termo “keynesianos” e colocar apenas Keynes, visto que pode gerar esta confusão. Os keynesianos a quem me refiro ali são os pós-keynesianos.
        Obrigado pela observação Joás.

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