Fusões e aquisições em tempos de crise

Nos últimos anos, o combinado entre 1) estagnação econômica, 2) queda do gasto e investimento públicos e 3) taxas de juros baixas gerou dois efeitos importantes: 1) estagnação dos investimentos produtivos (gráfico 1) e 2) aceleração das operações de fusões e aquisições (F&A, gráfico 2).

Formação de capital fixo, fonte: Ipea
Quantidade anual de operações de fusões e aquisições, fonte: KPMG

Fusões e aquisições como saída para a acumulação

A queda e estagnação da demanda no mercado brasileiro, que vem se estendendo desde 2014, tem gerado dificuldades para os capitalistas investirem no setor produtivo.

A queda dos juros, promovida pelo Banco Central (BC), tentou induzir os investimentos com taxas de retorno mais baixas. Entretanto, a elevada incerteza quanto à recuperação da demanda inibiram tanto a concessão de crédito, por parte do sistema bancário, quanto a confiança dos empresários em realizarem investimentos.

Como a queda dos juros impactaram a remuneração dos títulos de renda fixa, uma quantidade enorme de dinheiro fluiu para o mercado de capitais.

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Com isso, várias empresas encontraram uma oportunidade de aumentar suas captações a partir da emissão de ações no mercado de capitais.

Em tempos de crescimento econômico, esse dinheiro seria utilizado para a expansão das capacidades produtivas das empresas. Entretanto, com o mercado interno paralisado, a saída foi partir para as operações de F&A.

A predileção pelas F&A, em vez de investimentos físicos, se deve pelo fato deste tipo de operação permitir tanto a expansão do poder de mercado das empresas quanto a eliminação de competidoras.

Com o aumento do poder de mercado, as empresas que tiveram facilidade no acesso ao mercado de capitais poderão expandir suas margens e criar barreiras à entrada.

Fusões e aquisições na teoria econômica: a perspectiva de Veblen

Em “The Theory of Business Enterprise”, Veblen explica as F&A como um tipo de mecanismo utilizado para restringir a produção. Esta restrição ocorre por duas vias:

  1. Ao concentrar a produção nas mãos de menos organizações, as operações de F&A podem contribuir para a diminuição da produção e, desta forma, permitir as empresas sustentarem preços em patamares elevados.
  2. Com a elevação do poder de mercado, há também melhorias de produtividade, a partir da capacidade das organizações de controlar o conhecimento industrial. Com isso, a competição tenderá a ser restringida, de modo que a empresa dominante terá capacidade ociosa e produtividade elevadas.

Com isso, as F&A são bastante utilizadas pelas organizações com o intuito de elevarem seu poder sobre a sociedade e, desta forma, aumentar seus ganhos econômicos.

Este mecanismo de F&A é colocado em prática principalmente em tempos de crise, quando algumas empresas perdem valor, enquanto outras conseguem aproveitar as oportunidades geradas pelo acesso privilegiado aos mercados financeiro e de capitais.

Regulamentação do mercado

Esta dinâmica, se deixada livre, tende a induzir cada vez mais a concentração de mercado. É aí que, na prática, entra os órgãos controladores, como o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que visam inibir a formação de monopólios.

Ao manter o controle sobre a concentração de mercado, o Estado consegue diminuir a capacidade de sabotagem das empresas e, desta forma, equilibrar o poder entre empresas e consumidores, de modo que a acumulação não seja realizada a partir do sacrifício do bem-estar social.

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