Oito causas para o impressionante crescimento chinês

A cada dia que passa mais a China surpreende o mundo com seu crescimento econômicos que parece não ter fim.

Diversos foram os fatores responsáveis por esse crescimento, apesar de nenhum deles, isoladamente, poder ser apontado como o principal. Na verdade, houve uma coincidência de fatores geográficos, históricos, políticos e econômicos, que não podem ser replicados em outros países ou outras ocasiões ainda que a experiência chinesa ofereça lições importantes – que não obstante podem diferir de acordo com a abordagem ao desenvolvimento econômico.

A arquitetura futurista dos prédios de Shanghai é um dos principais símbolos do sucesso chinês.

A lista de fatores abaixo tem caráter apenas exploratório, nada se podendo afirmar categoricamente quanto às relações de causalidade, e muito menos quanto ao peso de cada um desses fatores no processo de crescimento.

Além disso, será apresentado apenas as medidas de política e reformas institucionais que possibilitaram o ciclo de crescimento acelerado, deixando a análise dos aspectos macroeconômicos para outra ocasião.

Vejamos a seguir oito pontos importantes que acredita-se ter contribuído para a mudança de trajetória de desenvolvimento e crescimento chinês, a partir dos anos 80.

1. Processo de liberalização do sistema de formação de preços

Em primeiro lugar, está o processo de liberalização do sistema de formação de preços, que tem início no setor rural, em 1979. Esses preços, que até então, à semelhança dos demais, eram fixados pelo Governo Central, passaram a abrigar um sistema duplo.

O Governo Central fixava a cota de produção que cada comunidade (Township and Village Enterprise) deveria entregar a um preço predeterminado. O restante da produção poderia ser negociado livremente no mercado. A partir daí os preços foram sendo liberalizados gradativamente.

Essa alteração provocou uma grande elevação na produtividade rural, com reflexos sobre a renda e o emprego.

2. Liberalização do comércio exterior

Em segundo lugar, está a liberalização do comércio exterior, uma das primeiras e mais importantes medidas tomadas após 1978.

Até então, o comércio exterior era inteiramente planejado pela autoridade central. Além disso, as exportações eram realizadas integralmente por empresas públicas. Como resultado, tanto exportações quanto importações cresciam lentamente. Inicialmente, os controles sobre as importações foram substituídos por elevadas tarifas aduaneiras, reduzidas posteriormente.

Porto de Shanghai, o maior porto do mundo atualmente.

O sistema de planejamento de importações foi também substituído por barreiras não tarifárias tradicionais, a partir do início da década de 1980. Essas barreiras também foram paulatinamente desmontadas ao longo dos anos. A partir do final da década de 1990, as medidas de liberalização do comércio exterior chinês foram aceleradas com vistas ao seu ingresso na Organização Mundial do Comércio, efetivada em dezembro de 2001.

3. Criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs)

A proximidade com Hong Kong inspirou a criação de quatro Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), em 1980, em Shenzhen, Zhuhai, Shantou e Xiamen, todas localizadas no litoral sul.

Nessas ZEEs, passaram a ser concedidos diversos incentivos, permitindo a criação de clusters, com spillovers positivos. A criação das primeiras ZEEs nessa região permitiu o deslocamento da produção industrial de Hong Kong, sobretudo em setores mais intensivos em mão de obra, cujo crescimento esbarrava em limites físicos, para a República Popular da China, ao mesmo tempo em que HK migrava sua produção para produtos superiores na escala tecnológica.

As Zonas Econômicas Especiais na China foram estabelecidas no litoral.

Os bons resultados obtidos nessas áreas levaram o governo chinês a criar, em 1984, outras 14 ZEEs semelhantes, ao longo do litoral. As áreas disponíveis para investimentos estrangeiros expandiram-se rapidamente, atingindo todo o litoral, no final da década de 1980, e alcançando o interior do país na década seguinte.

4. Elevado contingente de mão de obra rural

A existência de um grande contingente de mão de obra rural com produtividade muito baixa possibilitou seu deslocamento para as cidades, mantendo baixos os salários, mesmo com crescimento elevado da demanda por trabalho.

Entre 1978 e 2006, o número de trabalhadores nas áreas urbanas saltou de 95 milhões para 283 milhões. Ao mesmo tempo, os salários reais médios experimentaram um crescimento anual médio de 11%, muito próximo ao do PIB real.

Candidatos a funcionários são “conduzidos” ao centro de recrutamento da empresa.

Considerando que, certamente, houve nesse período um forte aumento da produtividade, o custo unitário de trabalho se reduziu.

5. Ausência de proteção à produtividade intelectual

Na Chinas, as empresas multinacionais (EMN) são obrigadas a conviver com um sistema que não garante plenamente a proteção da propriedade intelectual.

Para ingressar na China, até recentemente, as EMNs necessitavam de um sócio local que costumam se apropriar ilegalmente do conhecimento transferido do exterior para produzir por conta própria, em outra empresa (doméstica), produtos análogos por preços inferiores.

6. Gigantesco tamanho da população

O gigantesco tamanho da população da China favoreceu a existência de economias de escala na maior parte das indústrias, com fortes impactos sobre o custo de produção.

Isso permitiu a China ser a maior produtora dos principais artigos do mundo, como TVs, automóveis, aço bruto, cimento, entre uma infinidade de outras coisas.

Milhares de pessoas à procura de emprego visitam expositores numa feira de emprego em Chongqing.

7. Atração de Investimentos Diretos Externos (IDE)

Entre 1981 e 2007, o ingresso de IDE pulou de US$ 265 milhões para US$ 138 bilhões.

Inicialmente, as empresas multinacionais dirigiram-se quase que exclusivamente às ZEEs – onde receberam diversos incentivos fiscais, terrenos e edificações, além de poderem contar com o benefício de infraestrutura de energia e transporte e da localização ao lado de fornecedores e de outras indústrias semelhantes, bem como de centros de pesquisa, incubadoras de empresas e laboratórios de ponta.

Essa localização privilegiada facilitou o surgimento de transbordamentos tecnológicos (spillovers) e teve papel relevante no desenvolvimento tecnológico chinês e na alteração da pauta de exportações ao longo dos últimos 20 anos.

8. Políticas de incentivo à inovação

Por fim, temos as políticas de incentivo à inovação e à transferência e geração de ciência e tecnologia estiveram intimamente ligadas aos incentivos a investidores estrangeiros.

Durante vários anos, a permissão ou o incentivo a empresas estrangeiras esteve condicionado a compromissos no sentido de realização de transferência de tecnologia ou de abertura de centros de P&D no país.

Foxconn, a principal linha de produção e manufatura dos iPhones da Apple na China

Após o ingresso na Organização Mundial do Comércio (OMC), esses compromissos deixaram de ser legais. O agrupamento das indústrias, com spillovers, especialmente das mais intensivas em conhecimento, teve papel relevante no desenvolvimento tecnológico chinês e na alteração da pauta de exportações.

Créditos:

Este texto foi feito com base no artigo de Marcelo José Braga Nonnenberg: China: estabilidade e crescimento econômico (2010).

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