Poupança causa investimento? Uma perspectiva keynesiana

Muitos economistas ortodoxos têm afirmado que o aumento do investimento no primeiro trimestre de 2021 é resultado do aumento da taxa de poupança. Porém, para os keynesianos a relação de causalidade sugerida pode ser outra, ou seja, a de que a poupança é resultado do investimento.

Vejamos como isso aparece na Teoria Geral de Keynes.

Poupança e investimento em Keynes

A abordagem utilizada pelos economistas ortodoxos (neoclássicos) dá a impressão de que um esforço maior de poupança por parte dos indivíduos traduz-se automaticamente em um fluxo maior de investimento, em termos macroeconômicos.

Para Keynes, isto poderia ser válido, apenas em uma economia de tipo “Robinson Crusoé”. Na doutrina por ele questionada, “… tem sido suposto que qualquer ato individual de abstenção de consumir leva necessariamente a um aumento no mesmo valor do investimento” (Keynes, 1936, p. 19). Nesse caso, “… um ato de poupança individual conduz inevitavelmente a um ato paralelo de investimento” (Keynes, 1936, p. 21).

Uma foto bacana de Keynes.

Entretanto, em uma economia onde as decisões de se abster de consumir e as decisões de investir – associada a uma expectativa de consumo futuro – são tomadas por agentes diferentes. Desse modo, aqueles que acreditam na relação acima explicada são vítimas de uma ilusão de óptica, “… que faz duas atividades essencialmente diferentes parecerem a mesma. Eles estão supondo de forma falaciosa que há um vínculo que une a decisão de poupar e se abster de consumir no presente à decisão de prover o consumo futuro; quaisquer que sejam os motivos que determinem a última, eles não se relacionam de forma alguma com os motivos que determinam a primeira” (Keynes, 1936, p. 21).

Na economia keynesiana, a poupança das pessoas é função da renda e da propensão a consumir, ou seja, o dinheiro poupado é aquele não gasto com consumo no presente. Conforme os modelos básicos de macroeconomia, o consumo é determinado por dois componentes. Um é fixo, que é o nível mínimo de consumo que uma pessoa realiza e que é necessário para a sua subsistência. Já o outro é variável, aumentando ou diminuindo de acordo com a renda do indivíduo. É importante também mencionar que costuma-se dizer que a propensão a consumir é fixa no curto prazo, pois é relacionada a questão de hábitos de uma população.

Dessa forma, a poupança aumenta conforme aumenta a renda da população. Por sua vez, a renda aumenta com o crescimento da economia, que é afetada pelos investimentos. Ou seja, a poupança é determinada pela taxa de investimentos. Mas dessa conclusão não para por aqui, temos ainda entender como funciona o investimento e sua relação com a poupança.

Determinação do investimento em Keynes

Antes de avançar, é preciso deixar claro que, na abordagem keynesiana, um aumento na taxa de poupança da sociedade, causado por alguma política econômica ou mudança de hábito da população, não necessariamente estará induzindo os investimentos.

Para Keynes, o investimento é determinado pela eficiência marginal do capital, que nada mais é do que a expectativa de ganho futuro que o capitalista tem sobre o capital descontado da taxa de juros. Se a taxa de juros sobe, então o investimento tende a cair, enquanto que se os juros caírem o contrário se verificará.

Seguindo esse pensamento, é preciso determinar um dos preços fundamentais que determina o investimento, que é a taxa de juros. Dito isso, é preciso entender como é determinada a taxa de juros. Para os economistas neoclássicos, ela é fruto da oferta e demanda por fundos emprestáveis (poupança que se transforma em crédito). Dessa forma, um aumento da poupança induz a uma queda nos juros e, consequentemente, no investimento. Porém, para Keynes, a taxa de juros é determinada de outra maneira.

Como já abordado aqui no site, a crítica feita por Keynes ao modelo neoclássico é diretamente ligada às modalidades de determinação da taxa de juros e, consequentemente, à natureza da poupança.

Na Teoria Geral de Keynes, a taxa de juros é determinada exogenamente pela preferência pela liquidez (PL), pela eficiência marginal do capital e pelas expectativas de longo prazo dos empresários a partir do seguinte mecanismo:

1) A PL determina a demanda por moeda, a qual explica, num segundo momento, as variações da taxa de juros necessárias para igualar, novamente, demanda e oferta por moeda. Existe assim uma determinação monetária da taxa de juros, com esta sendo determinada, em última instância, pela PL.

2) Como resultado, temos que a poupança não pode financiar o investimento, pelo fato de a poupança ser a resultante da variação de renda produzida pela variação inicial do investimento. Em outras palavras, é impossível financiar o investimento inicial a partir de um valor que não existe quando esse investimento é realizado. Assim, o investimento não pode depender de uma poupança prévia.

Para esquematizarmos tudo isso, podemos separar as ideias dos neoclássicos e keynesianos da seguinte forma:

1) para os neoclássicos a poupança, que é determinada por fatores reais, influencia o investimento e a taxa de juros.

2) para os keynesianos, é o investimento que precede a renda e, por sua vez, a poupança da sociedade. Este investimento, por conseguinte, é afetado por fatores monetários (preferência pela liquidez e taxa de juros) e expectacionais (expectativa de demanda).

Ao incorporar a incerteza e a função especulativa da demanda por moeda no modelo econômico, Keynes altera totalmente os mecanismos de determinação do modelo neoclássico. Não é mais a produtividade do capital que determina o equilíbrio do sistema, mas sim fatores relacionados ao humor dos mercados. Desta forma, os níveis de emprego e renda das sociedades ficam sujeitas às constantes e imprevisíveis oscilações dos agentes financeiros.

Investimento e poupança no Brasil

Recentemente, com a divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2021, alguns economistas ortodoxos têm resgatado o argumento de que o aumento dos investimentos privados se deveu ao aumento da poupança.

Imagem
Taxas de investimento e poupança.

Apesar da taxa de investimento e de poupança andarem juntas, isso por si só não comprova qual a relação de causalidade estabelecida aqui. Soma-se a isso o fato de que o investimento foi inflado pela prática das petrolíferas de contabilizar as plataformas de petróleo já existentes como importação de bens de capital. Os dados verificados não garantem que esse nível de investimento será necessariamente sustentado nos próprios períodos, visto o comportamento dos demais indicadores, como a indústria e o consumo das famílias.

Além disso, a alta disponibilidade de fundos emprestáveis e juros baixos não garantem que os investimentos produtivos sejam desencadeados. Pode haver, inclusive, uma saída alternativa para esse excesso de liquidez, que são as Fusões e Aquisições (F&A). Conforme mostrado pela empresa de consultoria PwC, o primeiro trimestre de 2021 bateu recorde de fusões e aquisições para o período, totalizando 333 transações. Já a expectativa da consultoria é de que o ano seja de novo recorde, com mais de 1200 transações. Em 2020, foram 1038.

Aqui no site também tem um texto discursando sobre essa questão das Fusões e Aquisições (F&A).

Pra finalizar, em linha com Keynes, não basta apenas a decisão de aumentar a poupança para que o investimento se realize. É preciso que haja estímulo ao investimento e a canalização da poupança, em forma de crédito, para a viabilização de novos projetos. Além disso, a decisão de investir é determinada pelas expectativas de demanda, que hoje está estagnada, devido ao desemprego, queda da renda e baixo nível de consumo das famílias. Já a demanda externa, esta tem alavancado apenas a indústria extrativista, que pouco contribui para o emprego e bem-estar social.

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